quarta-feira, 22 de julho de 2009

o que eu vi

Não sei o que vi ou o que fazer com o que vi. De um verde translúcido, olhos. Não verdes, mas através da cor. Olhos de cais noturnos, cheio de adeus, olhos de docas mansas que criam trilhos de luzes que brilham longe dos olhos meus. Nos olhos de mistério que vi, navios e naufrágios, todos naufrágios meus.
Olhos oblíquos? Olhos de cigana dissimulada? Olhos. Que se agigantaram para além da obviedade da beleza dos verdes e azuis e se desenharam no espaço, um espaço imaginado de sonho. E de novo sonho de naufrágios e navios perdidos e sereias que choram no fundo do mar e tesouros dos quais só temos o mapa, mas caminhos impossíveis de trilhar.
Olhos vistos através do verde, não verdes, porque verde é o mar. E nele, a imensidão.
Olhos de Iara que canta - e como não seguir o canto? - ainda que remeta ao fundo do oceano.
Não sei o que fazer com o que vi porque o que vimos nunca é retratado - nem para outro, nem na nossa memória, nem na fotografia. Se o outro não há, se a memória é incerta e se a foto não houve, resta o que? Resta algo para além da memória que, como a arte, não é registro, mas tradução de algo. Tradução de memória, de sensação, de dor e de gozo, tradução de fome e de sede, tradução de cansaço e de insônia, tradução de angústia e de prazer, de espera e de realização, de amor.
Tradução. Não vivemos o mundo, traduzimos o mundo. Não sei como usar letras ou formas ou sons, apenas tateio na tentativa de devolver a impressão daquilo que vi, na esperança de que o eco de tudo, voltando para mim mesmo, eternize o objeto observado. Olhos.
E que se dane a maré, a raiva das ondas, a escrita na areia que a água apagou, que se dane o sol que não veio, o frio que dominou tudo, que se dane a praia distante de brilho de faróis solitários, e que se dane toda a racionalidade do mundo.

E pronto: que se dane Macchu Picchu, tão longe da praia e para onde faço questão de nunca ir. Que se dane inclusive se a grafia está correta ou não, que se dane o Google.

Ninguém pode me tirar as páginas traduzidas escritas dentro de mim.

Obrigado Vinícius, pela possibilidade de extrair do seu poema um pouco de inspiração.
Desculpem-me os incas.