segunda-feira, 31 de março de 2008

"... É bonito o mar. E está cheio de idéias que flutuam junto à espuma"



JOSÉ
Eu não quero continuar sonhando.

ANTÔNIA
Então nunca saberá por que perdeu a memória.

JOSÉ
Para que fuçar num passado onde só existem lamentos?

ANTÔNIA
O problema é que se esquecemos o que nos dói, possivelmente nos esquecemos do que nos pode fazer feliz.
(...)
JOSÉ
É bonito o mar.

ANTÔNIA
Sim. E está cheio de idéias que flutuam junto à espuma.
(Arístides Vargas, "Jardim de Polvos")
O sujeito perde a memória. E para conseguir recuperá-la, encontra a ajuda de uma louca, que o leva até uma praia. Lá, ela diz que ele deve sonhar, pois através dos seus sonhos as lembranças voltarão.
Meio Édipo isso. O que impulsiona a peça de Sófocles é justamente a busca da própria origem - no caso dele, as memórias foram roubadas mesmo, porque nem puderam existir, já que sua vida foi completamente transformada a ponto dele crer ser alguém que não é.
Interessante como em dois textos onde existe um pano de fundo político - as implicações sobre a sociedade em "Édipo" e o panorama terrível da recente história latino-americana no "Jardim" - é sempre no coração humano que reside a semente.
Não dá para falar em política sem falar no indivíduo. O contrário disso é chegar nas massas de manobra, nas multidões cegas como as torcidas de futebol. A consciência tem que criar raízes profundas no plano individual para daí contaminar o coletivo, passo a passo.
Como podemos apreender a partir de Brecht. "Fazer política" não simplesmente como o jogo do poder exercitado pelos políticos, mas como uma forma de proporcionar um novo olhar sobre o mundo. Olhar o que é estranho como natural e o que é natural, como estranho.
Não crer que as coisas, por "estarem assim" necessariamente "são assim ou precisam ser sempre assim".
E no meio disso tudo parece bobagem achar que se é uma coisa ou outra. Que para preocupar-se com "política" devemos ser racionais e distantes de tudo. Ou que encarar as próprias emoções é ser escapista ou alienado.
O problema é encarar a viagem para dentro de nós mesmos e vencer nossos medos. O grande amor da sua vida não garante que estará por perto a vida toda. O país dos seus sonhos não fica em um lugar seguro, lá no futuro. O meio termo da paciência e a urgência do "aqui e agora". Essa medida é a balança da nossa felicidade.
O mundo é transformável.
E as pessoas, também.
Para melhor, por favor.

Um comentário:

Unknown disse...

Para melhor. Cada vez mais.

Apesar.