
Grande bobagem um jogo de War. Concordo. Em meio à tanta coisa para estudar, ler, pesquisar, perde-se tempo (horas, literalmente) precioso ao redor de um tabuleiro, em geral transbordando de hostilidades. E o pior, você perde. War para mim é como cozinhar. Eu gosto muito muito mais do que sei.
E o que o Ibsen e o Peer Gynt tem a ver com isso?
Nada. Só que o personagem central da peça é um mentiroso contumaz que acha que um dia vai ser imperador do mundo. Se ele tivesse um jogo de War, a peça não aconteceria provavelmente. Era só dominar o mundo. Se ele não jogasse contra a Kedma, é claro.
Mas sério: ele é outro da categoria dos anti-heróis. Estilo Quixote. Mas a loucura dele não é, como a do "Cavaleiro da triste figura", uma tentativa de consertar o mundo. Pelo contrário, é de dominar o mundo para si. Mas essa megalomania esconde um desejo de compensação pela infância pobre, pela vergonha de um pai bêbado que perdeu toda a fortuna da família, pela ridicularização que passa em sua terra.
No programa do Quixote, a descrição encontrada para falar dessa "família" de personagens era essa:
"Quixote se dá a liberdade de olhar o mundo com outros olhos, de enxergar aquilo que nos é posto como definitivo de uma maneira transgressora, pois acredita no que deixamos de acreditar: na transformação. E o nosso sonho é o que pode haver de mais sagrado. É ele que nos redime da “obrigação” de sermos heróis, e nos inscreve na categoria dos “anti-heróis”, imperfeitos, patéticos às vezes, cheios de falhas e desejos impossíveis. Descemos da esfera dos seres superiores e descobrimos a coragem de revelar o que existe de mais humano: nossas imperfeições, medos, angústias, paixões...O “anti-herói” é o herói que se trai, que revela seu lado fraco, que muitas vezes é humilhado, massacrado, mas que defende seu direito sagrado de crer que o mundo pode – ou ao menos deveria – ser diferente. E é bonito ver o herói se traindo. Porque é humano."
O que falar do Peer no seu jogo de War imaginário com a vida? Ele encontra Solveig, a mulher por quem se apaixonara e que por sim abandona tudo para ficar com ele. Mas o passado surge à sua porta e aterrorizado ele foge, deixando-a para trás... (não posso contar o final da peça, mas leiam: http://www.esec.pt/teatro/ficheiros/Peer_Gynt.pdf, tradução/adaptação portuguesa, mas enfim...)
A saga de Peer Gynt se estende por cinco atos, repleta de referências do folclore nórdico, de aventuras e situações imprevisíveis ao longo de 50 anos de vida da personagem. A música de Grieg, composta para o texto de Ibsen é um capítulo à parte.
Vocês podem ler o texto, pesquisar a trilha, pesquisar imagens de montagens de Peer Gynt e em breve assistir a uma montagem que vai estrear por aí nesse semestre ainda... Ao invés de gastarem tempo jogando War.
Especialmente se for com a Kedma.
Ela sempre ganha.
Um comentário:
Devo dizer que você cozinha muito, mas muito melhor do que joga War.
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