terça-feira, 29 de maio de 2012

...

Toda vez que eu passo pela Consolação com a Paulista e vejo o Belas Artes, ou melhor, o antigo Belas Artes, me entristeço. Por alguns segundos eu quero crer que ele está apenas em reforma, que logo abre de novo e que poderemos ver mais e mais filmes, brigar por ingresso de novos Noitões e coisas assim... Da mesma forma que eu pensava na volta do Riviera, que seria apenas uma reforma para que retornasse com o mesmo charme, talvez um pouquinho melhor cuidado... Do que teremos saudade daqui a dez, vinte anos? O que mais nos resta para ser tirado em uma cidade onde cada vez mais tudo vira franchising, Shopping Center, tudo vira detetor de metais, estacionamento pago, zona azul, radar, impessoalidade, generalidade? Vamos lembrar do Shopping que mudou de dono e de layout, do Estacionamento vertical que possuía apenas quatro andares, do cinema que ainda era 2D mesmo sendo Cinemark, do último teatro que não tinha virado igreja ainda... Quem sabe não viveremos o dia em que até os teatros do SESC virarão igrejas dentro das unidades? Que os bancos colocarão os chips dos cartões na nossa pele? Que toda a educação virará ensino à distância e que os entregadores de pizza levarão a sua prova junto para ser arquivada? Medo. Pra que foram fechar o Belas Artes? É o começo do fim.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Artista da Fome

Em uma época remota, em um país muito distante, havia um homem que buscava uma profissão. Entusiasmado por culinária e gastronomia, ele havia se formado mestre-cuca e ficou muito contente ao ser chamado para trabalhar na cozinha de um restaurante conhecido. A estrutura era grande e lá encontrou muitos colegas, entre cozinheiros, garçons, funcionários do caixa, da limpeza e de outros setores. Jamais havia pensado sobre o quanto uma cozinha movimenta pessoas nas mais diversas tarefas, até que o prato chegue à mesa do freguês. Alguns colegas reclamavam da gerência. Alguns clientes também. Seu entusiasmo dizia: reclamações sempre existirão! Não há restaurante no mundo que seja unanimidade! Depois de algum tempo de casa, o cozinheiro passa a ter críticas pessoais ao trabalho. Mas isso também é normal, pensou. Seu entusiasmo dizia: dentro da cozinha, continuo seguindo minha paixão! O que interessa é que os clientes gostem do meu tempero! Mas percebeu que pensou alto quando o gerente gritou, completando a frase que ele soltara sem perceber: e que voltem! E que voltem! Mais algum tempo e ele nota que a clientela não é mais a mesma. Que não apreciam os pratos como antigamente, que não tem curiosidade pelo cardápio, que não procuram mais o restaurante porque gostam da comida, mas porque o preço é bom, porque é bem localizado e porque podem mudar os pratos como quiserem. Ninguém mais arrisca experimentar seus pratos. Todos, cozinheiros auto-didatas, cobrando o tempo todo o arroz com feijão, a reprodução fast-food ou a incensada culinária light. No máximo, variações desses modelos. A gerência orienta a cozinha a satisfazer o cliente, ressaltando que a última palavra no mundo dos melhores restaurantes é a possibilidade de interação cliente-cozinha. E que ele, claro, tem sempre razão. O homem começa a esquecer as receitas. Uma noite, em casa, descobriu que não se lembrava mais do que era "açafrão". Em outra ocasião, demorou quinze minutos para se lembrar do nome do "azeite", pois pensava apenas em óleo composto. Passou a levar as facas de casa para o restaurante, pois por segurança, elas haviam sido proibidas lá - há meses ele só cozinhava com faquinhas de plástico, iguais as que vinham nos bolos Pullman. Quando finalmente percebeu seu impulso por um hot-dog, pediu as contas. Alguns dizem que este homem é o mesmo personagem retratado por Kafka em O Artista da Fome, em um momento anterior.

domingo, 20 de maio de 2012

Uma Alice Imaginária

Outro dia lendo a Anne Bogart me deparei com um momento onde ela descreve o processo de um espetáculo no qual ela simplesmente desistiu de fazer algo para o público "em geral" e assumiu que seu "público alvo" era determinado - no caso, para pessoas da classe teatral, uma vez que a peça girava em torno deste universo. O resultado foi um grande sucesso de público, para além de seu "alvo" original. O "público" sempre é algo imponderável, em algum nível. Mesmo nos debates que vejo sobre esta questão, incrível como quase ninguém contextualiza o que significa ir ao teatro hoje, para além do espetáculo em si. Fala-se de políticas públicas de incentivo, de formação do espectador no sentido dos acessos físicos e simbólicos, mas para além disso, o que significa uma pessoa optar por ir ao teatro ao invés de ocupar seu tempo com qualquer outra coisa? Vamos pensar em um sujeito que se anima de assistir um espetáculo. Bem, ele já começou a achá-lo chato, inconscientemente, quando resolveu assistir a uma sessão numa sexta-feira (ainda existem espetáculos às sextas?) e saiu do trabalho com a intenção de ir direto ao teatro. Claro que pegou trânsito. Teve que ser ríspido com dois ou três sujeitos que tentaram limpar seu vidro, ainda mais com o boato do ácido (não sei se o boato ainda vigora, mas uma das lendas urbanas que apareceram foi a do ácido que os flanelinhas estariam borrifando nos motoristas...). Sem perceber, da segunda vez que foi grosso com o rapaz no farol, já começou a não gostar da peça. Nosso amigo finalmente chega nas proximidades do teatro, uma hora antes – saindo do trabalho às 19h, ele levou apenas uma hora, num trajeto que sem trânsito demoraria quinze minutos. Nova irritação com a baliza demorada na única vaga que encontrou e com o guardador de carro que só aparece depois do carro estacionado e lhe pede cinco reais adiantados. Ele ainda não percebeu, mas já está insatisfeito com o espetáculo que ainda não começou. À essa altura do campeonato, ele se dá conta de que está cansado e com sono e finalmente começa a se questionar se foi uma boa idéia ter combinado uma ida ao teatro ao invés de simplesmente voltar para casa, ver TV ou só parar no bar mais próximo, no caminho. Mas agora já está na esquina do teatro, tomando um expresso e esperando sua companhia que lhe garantiu que o espetáculo é ótimo. As chances dele superar todo esse contexto, neste momento, já são pequenas. A companhia chega e um leve relaxamento ocorre, neutralizando um pouco toda a irritação, cansaço e sono. Um pouco. Vão à bilheteria e infelizmente não aceitam cartão. O jeito é correr até um posto de gasolina e sacar dinheiro em um caixa 24 horas. Agora faltam apenas quinze minutos para o começo da peça e o caixa está quebrado. Eles saem com o carro, pagam os cinco reais para o guardador mau-encarado e vão até um caixa eletrônico do banco, onde sacam dinheiro. Na volta, acabam optando por parar em um estacionamento e correm até o teatro. Entram e sentam-se em seus lugares. A correria e a distração fazem com que nosso amigo esqueça o celular ligado e ele toca logo no início da peça. Numa mistura de vergonha e raiva, ele o desliga o mais rápido que pode, mas já não está mais prestando atenção em nada. Seu último descuido, a vergonha e a irritação que provoca nos demais espectadores fazem com que ele some todos os revezes do dia e se arme contra a peça. Agora todo o filme do seu dia passa rapidamente em sua cabeça e é ele que na realidade está em primeiro plano – a peça que se dá frente aos seus olhos nem é percebida. No dia seguinte, quando lhe perguntam sobre o que viu no teatro, seu veredicto é instantâneo: uma peça muito chata. Não sei quando minha peça estreia, mas desde já peço: assistam de coração aberto. Em um dia tranquilo, não no meio da correria, não quando acordaram às seis da manhã, não na final do BBB, não em jogo decisivo do seu time do coração. Não espere que minha peça consiga superar o perrengue do seu dia, nem que tenha que se provar melhor do que aquilo que você deixou de fazer para estar lá. Vá porque quer estar ali, simplesmente. Sem sacrifícios. Foto: Ensaio de "Uma Alice Imaginária", sem data de estreia prevista, por Lílian Segui.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal


"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

"Escrevo à noite. Vem na aragem noturna um cheiro de estrelas. E, súbito, eu descubro que estou fazendo a vigília dos pastores. Aí está o grande mistério. A vida do homem é essa vigília e nós somos eternamente os pastores. Não importa que o mundo esteja adormecido. O sonho faz quarto ao sono. E esse diáfano velório é toda a nossa vida. O homem vive e sobrevive porque espera o Messias. Neste momento, por toda a parte, onde quer que exista uma noite, lá estarão os pastores – na vigília docemente infinita. Uma noite, Ele virá. Com suas sandálias de silêncio entrará no quarto da nossa agonia. Entenderá nossa última lágrima de vida."

Nelson Rodrigues (crônica natalina publicada em O Globo)


Eu sempre gostei de pensar o Natal para além da crítica do consumismo ou da tacação de pedra generalizada no Cristianismo.
Não estou preocupado com a sociedade de consumo. Ela está aí e é evidente. Chover no molhado no Natal é que nem convidar um amigo vegetariano xiita pra ceia e deixar ele ficar lastimando o destino do peru.
Não estou preocupado também em fazer a crítica da Igreja Católica e tal. Deixo o nascimento do menino Jesus em seu plano mítico de um deus que se faz homem e nasce em meio aos outros homens para que nos lembremos da nossa parcela divina. E para que o deus talvez se lembre de sua parcela humana. Para mim a metáfora basta. E me parece tão bela quando as mitologias "politicamente corretas" da Grécia, da África ou dos nossos índios. Crer ou não crer não é o ponto.

Quando eu era mais novo lembro de uma amiga que perdeu o pai e me disse: "ou Deus não existe ou ele é mau". Me pareceu injusto contrariá-la naquele momento mas hoje, depois de ter perdido a minha mãe eu digo: depois de tantas guerras, fome, doença, miséria, morte e o escambau, não porque minha mãe morreu que eu passo a acreditar ou desacreditar em Deus. O ser humano já sofria - e muito - antes de pisarem no meu calo.

Hoje, dia 24 de dezembro, minha mãe faria 82 anos. Por isso minha avó teve a brilhante idéia de colocar o nome de Natalina nela. Dona Maria Natalina estaria preparando as coisas para a noite, com certeza.

A melhor forma de lembrá-la é resistir à tristeza e lembrar que mesmo com toda a dor do mundo o Natal pode ser uma ocasião para nos lembrarmos de que, como toda a utopia, esta data pode ser uma maneira de nos fazer caminhar. Se possível para uma direção com mais tolerância e compreensão entre as pessoas, para além dos lugares comuns sobre sociedade de consumo, política, religião e etc.

E os vegetarianos que me perdoem também, mas que a morte de todos os chesters, perus, porcos e afins não tenha sido em vão e que eles possam alimentar muitas orgias alimentares.

Feliz Natal e um ano de 2012 digno do fim do mundo Maia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Belas Artes



Eu ainda passo ali pela Consolação e não me acostumo com o Belas Artes fechado.
O fechamento do Riviera Bar ali em frente já foi um golpe.
Também não me acostumei ainda.

A cidade vai mudando e a gente nem se dá conta. Teatros virando igrejas, casarões antigos virando bancos, cinemas virando bingos, bingos fechados virando sei lá o que, e por aí vai...

Antes que as usinas hidrelétricas virem grandes bolsões de cata-ventos gigantes, os atores da Globo poderiam se empenhar mais nas questões culturais e deixar a Ecologia para quem entende do assunto - nem eu, nem eles. Uma coisa aparentemente não tem relação com a outra, mas acho um absurdo o descaso com a cultura. Além daqueles que estão de olho em salvar o próprio aluguel, quem se importa com Leis de Incentivo, Fomento, Formação de Público e o escambau? Sim, eles SÃO formadores de opinião. Se ninguém fizer essa ponte - entre a classe artística e a sociedade - vamos continuar uma ilhazinha, uma pequena cidade do interior com vinte mil habitantes de DRT e pires na mão.

Uma cidade de artistas e teatros fechados, cinemas fechados e um monte de igrejas, bingos e bancos. Que supostamente apóiam a cultura.

Vai lá com a sua Rouanet debaixo do braço, vai.

Ah é... Esqueci que falar de ecologia é mais legal (mesmo não entendendo do assunto)...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Alice



... e então ela olhou para os lados e viu a velha casa com os móveis cobertos por panos brancos e o barulho que mais se ouvia era o do plástico bolha estourando com as passadas despreocupadas dos homens que carregavam coisas com o cuidado medido na proporção exata de quem não quer quebrar nada mas ao mesmo tempo não tem nenhum amor por aquilo que carrega. E tudo foi se esvaziando, esvaziando, esvaziando até não sobras coisa alguma e ela chorou em um canto perto de uma janela sem cortinas e na sua imaginação as lágrimas formaram uma poça d´água onde ela boiou sem destino por muito, muito tempo. No fim, uma mão pousou no seu ombro e a tirou desses pensamentos. E tudo estava seco e vazio. E ela saiu de lá. Quase conseguiu ver um coelho passando pelas escadas, mas ele foi rápido demais para que isso acontecesse.

sábado, 10 de setembro de 2011

Vovó Mafalda Coletivo Teatral - Primeiro Manifesto



Primeiro Manifesto

O Vovó Mafalda Coletivo Teatral propõe o retorno da Arte ao seu estado único de ação agregadora de estímulos, símbolos e leituras do real que por si só pretende recriar a sensação primeira do homem primitivo ao sair de sua caverna e gritar: "salve o dia", mesmo antes de haver uma linguagem articulada;

Nosso bom selvagem hoje é o homem da metrópole, o homem coisificado, que deve despertar de seu estado de insônia sonambulesca urbana e rever o rosto do palhaço-travestido no espelho - o pancake branco, sua verdadeira face escondida pelo falso glamour das cidades;

A Arte do Teatro só reencontrará sua chama original pela desconstrução até daquilo que já se desconstruiu; nem o pós dramático nos serve - ele precisa ser desfigurado: só com uma torta na cara Lehmann reencontra seu estar-no-mundo;

O palco é a Vida, e a Vida precisa ser resignificada para que de novo faça sentido entre os quatro lados do picadeiro-peça-manifesto-show da Pólis moderna. Nosso nariz vermelho não é do clown folhetinesco, açucarado, bestializado em sua ingenuidade imbecil, mas da comicidade do grotesco animal, das víceras do riso original artaudiano, do silêncio tribal pós banquete antropofágico onde os inimigos eram devorados - suas qualidades digeridas e seus defeitos defecados.

Só Vovó Mafalda nos une. A vovomafaldificação da Arte é urgente, necessária e plural.

Trabalhadores da Cultura, Mafaldifiquem-vos!