sexta-feira, 25 de maio de 2012

Artista da Fome

Em uma época remota, em um país muito distante, havia um homem que buscava uma profissão. Entusiasmado por culinária e gastronomia, ele havia se formado mestre-cuca e ficou muito contente ao ser chamado para trabalhar na cozinha de um restaurante conhecido. A estrutura era grande e lá encontrou muitos colegas, entre cozinheiros, garçons, funcionários do caixa, da limpeza e de outros setores. Jamais havia pensado sobre o quanto uma cozinha movimenta pessoas nas mais diversas tarefas, até que o prato chegue à mesa do freguês. Alguns colegas reclamavam da gerência. Alguns clientes também. Seu entusiasmo dizia: reclamações sempre existirão! Não há restaurante no mundo que seja unanimidade! Depois de algum tempo de casa, o cozinheiro passa a ter críticas pessoais ao trabalho. Mas isso também é normal, pensou. Seu entusiasmo dizia: dentro da cozinha, continuo seguindo minha paixão! O que interessa é que os clientes gostem do meu tempero! Mas percebeu que pensou alto quando o gerente gritou, completando a frase que ele soltara sem perceber: e que voltem! E que voltem! Mais algum tempo e ele nota que a clientela não é mais a mesma. Que não apreciam os pratos como antigamente, que não tem curiosidade pelo cardápio, que não procuram mais o restaurante porque gostam da comida, mas porque o preço é bom, porque é bem localizado e porque podem mudar os pratos como quiserem. Ninguém mais arrisca experimentar seus pratos. Todos, cozinheiros auto-didatas, cobrando o tempo todo o arroz com feijão, a reprodução fast-food ou a incensada culinária light. No máximo, variações desses modelos. A gerência orienta a cozinha a satisfazer o cliente, ressaltando que a última palavra no mundo dos melhores restaurantes é a possibilidade de interação cliente-cozinha. E que ele, claro, tem sempre razão. O homem começa a esquecer as receitas. Uma noite, em casa, descobriu que não se lembrava mais do que era "açafrão". Em outra ocasião, demorou quinze minutos para se lembrar do nome do "azeite", pois pensava apenas em óleo composto. Passou a levar as facas de casa para o restaurante, pois por segurança, elas haviam sido proibidas lá - há meses ele só cozinhava com faquinhas de plástico, iguais as que vinham nos bolos Pullman. Quando finalmente percebeu seu impulso por um hot-dog, pediu as contas. Alguns dizem que este homem é o mesmo personagem retratado por Kafka em O Artista da Fome, em um momento anterior.

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