quinta-feira, 28 de julho de 2011

FUNARTE

Eu vivi a vida toda ensaiando em espaços onde outros grupos trabalhavam. Escolas, espaços públicos, locados, onde muitas vezes havia conflitos de agendas, grupos em horários e espaços trocados e tudo mais...

Eu sempre odiei entrar em uma sala e interromper o ensaio de alguém. Mesmo quando quem estava ali estava equivocadamente. Acho agressivo interromper uma ação criativa. Acho invasivo entrar em um espaço de criação e de intimidade.

Lutar pelos interesses da classe teatral é legítimo. Mas ocupar um espaço onde pessoas estão ali FAZENDO ARTE e impedí-las disso me parece injusto, abusivo e invasivo. É um contra senso lutar pela Arte impedindo-a, em qualquer instância.

Quem acha que o teatro é importante além de quem FAZ teatro? A culpa é da FUNARTE ou um pouco nossa, que olhamos apenas para nosso umbigo e nossos pares?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Giles



Em uma aula, certa vez, meu amigo Cyro Del Nero disse:
"O Egito me dá preguiça."
O comentário politicamente incorreto deixou a turma em suspenso por alguns instantes, até ele explicar. A civilização egípcia era tão grandiosa e sua importância na História e na Arte tão grande que seria preciso uma vida dedicada só a ela, para lhe fazer justiça. E ele preferia se dedicar à Grécia. E a Grécia para o Cyro não admitia concorrência.

Hoje em dia tenho visto muitos espetáculos e/ou projetos que sempre citam Deleuze. Acho que o teatro, antes do Deleuze, não existia. Ou pelo menos não existia em sua forma ideal, que é a do "teatro contemporâneo"... Li coisas dele como comentador do Artaud, mas me incomoda o fato de que tudo hoje em dia parece ter que possuir a "chancela" do Deleuze - ao menos uma citaçãozinha, vai - para constituir-se como pensamento.

Prefiro ler o Artaud do que o comentário do Deleuze sobre o Artaud. Mesmo que declarar isso seja um pecado...

E tem MUITA coisa que funciona em teses, projetos, programas de peça... Mas não se configuram na prática. A questão é que nossas leituras constroem nosso pensamento e interferem diretamente o nosso fazer - mas não RESOLVEM nosso fazer.

Não duvido da importância do Deleuze mas sinceramente acho que não estou a fim de dedicar minha vida a ele. Deleuze para mim é como o Egito. Dá uma certa preguiça...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

São Paulo, 16 de Junho de 2011

Pois é, meio ano foi embora e a correria continua.
Já adiantando um balanço de semestre, foi positivo sim...
Mas fica a sensação de que o tempo ou soa demasiado ocioso ou intenso demais.
Ou sobra ou falta, e não necessariamente para as coisas que realmente importam a balança do "sobra" pesa... Na verdade, é quase sempre o oposto...

Acho que devo fazer umas "resoluções de semestre novo" ainda a tempo de começar agosto diferente...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

NIKLASSTRASSE, 36


Baseado na obra A Metamorfose, de Franz Kafka, o espetáculo Niklasstrasse, 36 mostra uma manhã que deveria ser como outra qualquer, mas que marca, definitivamente, a vida de Gregor Samsa. A metamorfose já aconteceu. O que o espectador vê, ao longo da fábula kafkiana, é a transformação do entorno, das pessoas que convivem com Gregor - a clareza cada vez mais nítida sobre a perversidade das relações familiares, das estruturas de dominação e submissão e da alienação humana. Com Aline Baba, Camila Nardoni, Luana Frez, Lucas Almeida e Mariana Viana. Direção René Piazentin.



Teatro Cacilda Becker - Rua Tito, 295, Lapa

de 03 a 26 de junho de 2011

Sextas e sábados as 21h e domingos 19h

Ingressos: R$10,00 (meia R$5,00)

terça-feira, 3 de maio de 2011

BL

Oito horas da manhã. O interfone toca. Acordo, assustado, e atendo. Não tenho o costume de receber visitas nesse horário, em dias normais ainda não levantei sequer. Caminho até a cozinha e atendo.
"Tem um senhor aqui embaixo querendo subir."
"Quem é?"
O porteiro pergunta para a pessoa e não consigo ouvir a resposta. Ele pergunta de novo, como quem não entendeu o nome. Ouço ele repetir a pergunta umas três vezes.
"Deixa eu falar com ele."
"Alô?", falo ao interfone, já consciente da mania dos porteiros em transformar Gláucia em Cássia, Thiago em Danilo, Luís em Juarez.
"Bom dia. Estou incomodando?"
"Quem é?"
"O Osama. Posso subir?"
"Osama?"
"Podemos conversar aí em cima?"
"Eu não conheço nenhum Osama."
"Eu preferia não conversar na presença do seu porteiro."
O porteiro parece tomar o interfone das mãos do visitante, pelos ruídos. É ele quem retoma a conversa.
"O senhor conhece?"
"Não que eu me lembre."
"Ele quer subir."
"Espera. Eu vou descer."
O tempo do elevador me deixa tirar duas ramelas do olho e só. Nem sei por que não ignoro simplesmente e volto a dormir, mas desço. Quando chego na portaria vejo um senhor de uns sessenta anos, pela barba já grisalha, magro e usando um turbante branco. Tem uma grande mochila nas gostas e uma AK-47 a tiracolo.
"Quem é você?" pergunto. Ele apenas faz um sinal de silêncio com o indicador entre os lábios e me pede para subir com um levantar de olhos. O porteiro, sem entender nada, levanta-se da sua cadeira e parece começar a ir ao encontro do estranho visitante, de forma automática, sem saber ao certo o que irá fazer.
"Tudo bem", digo olhando o porteiro, e caminho até o elevador, abrindo a porta e indicando ao visitante que entre.
Subimos. Os vinte segundos que o elevador demora parecem uma eternidade. Durante a "viagem" o visitante não fala nada, apenas conserva um sorriso enigmático nos lábios.
"Entre", digo a ele, abrindo a porta do apartamento.
"Você tem café?" são as primeiras palavras do visitante, em português castiço.
"Posso fazer."
"Bem forte, por favor", ele diz, completando: "não durmo há dias."

Maio, junho...