"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, para que seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava."
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
"O resto é silêncio"
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
...
Um trecho de música, uma frase de um livro, as últimas palavras de um grande homem, uma citação de efeito, um poema desconhecido e genial. Algo que resumisse o que se passa aqui.
Uma vez alguém me disse, resumindo uma determinada sensação: "não temos mais para onde voltar." Acho que é isso. Não se ter para onde voltar. Outro dia me bateu isso, andando de volta para casa. Não confundir o "de volta para casa", no sentido literal, com esse "ter para onde voltar".
"Ter para onde voltar" pode ser sua família. A idéia de um lar não apenas como quatro paredes, mas como um pequeno núcleo de pessoas que estão intimamente ligadas a você. Para as quais você é prioridade. O colo da mãe, mesmo quando distante, é sempre o colo da mãe. O abraço do pai ou o ombro do irmão. Estão ali. Mesmo distantes.
"Ter para onde voltar" pode ser sua namorada, esposa, etc. Alguém que se ligou intimamente a você mesmo que um dia possa acabar, mas que na eternidade do "enquanto dure" está ali - supondo que você tenha a sorte de encontrar uma solidão para acompanhar a sua solidão. E no conceito de eternidade relativa, está ali.
"Ter para onde voltar" podem ser seus amigos. Os mais próximos, que estão ali quando você precisa. A vida une e separa as pessoas, mas mesmo assim existem os que perduram. Ou mesmo os que naquele momento compõe essa segunda família. Eles estão ali quando você precisa deles.
"Ter para onde voltar" pode ser seu trabalho, sua criação. A centelha de criatividade que te alimenta e que faz com que a vida pareça um pouco menos sem sentido. Mesmo que esse sentido seja inventado, criado. E você pode voltar, ou voltar-se para isso.
"Ter para onde voltar" pode ser você mesmo. Mas isso talvez seja o mais difícil. Em tempos de heroísmo exaltado e auto-suficiência como marca de estar no mundo, faz falta colo e ombro às vezes. Faz falta quem está ali mesmo quando você não precisa. E aí vem a sensação de não se ter para onde voltar.
Sem querer a piedade alheia, voltei para casa.
Literalmente, digo.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A Bao a Qu
Esta torre consiste em vários degraus espiralados, e no topo pode-se ver a paisagem mais linda do mundo.
O A Bao A Qu espera, no primeiro degrau, o visitante corajoso o suficiente para subir. Neste ponto, ele permanece meio letárgico, translúcido, até que alguém chegue. Então, quando alguém começa a escalada, ele acorda e segue o visitante. Conforme a subida progride, ele fica com a forma mais definida e ganha mais cor. Na metade do caminho, ele ganha uma luz azulada e seus membros tornam-se visíveis. Mas só atinge a perfeição quando chega no topo, quando chega ao Nirvana.
Mas quase sempre o visitante não vai até o final da escalada, pois não possui o coração puro.
Quando A Bao A Qu percebe isso, ele vira de volta, perdendo sua cor e visibilidade, e rola as escadas até atingir o primeiro degrau, soltando um lamento baixo e sutil como o roçar da seda.
A Bao a Qu não tem olhos, mas pode enxergar com todo o corpo. Ao toque, lembra um pêssego.
Parece que apenas uma vez na vida ele conseguiu estar no topo da torre.
(Segundo conta Jorge Luís Borges no "Livro dos Seres Imaginários")
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
5 Abraços e um Heiner Müller

segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Andares
Deve ser a barba. Já tomei providências.
Em seguida, por duas vezes, me param para perguntar o itinerário de algum lugar. Eu devo ter cara de alguém que dá informações confiáveis, isso sempre acontece. Acho engraçado, já que o meu forte nunca foi decorar caminhos. Especialmente quando a pessoa que pergunta está de carro, a maior parte das vezes eu até sei - a pé.
Tento me acostumar a ver as pessoas dormindo pelas ruas, mas isso não deveria ser normal. De vez em quando me pego achando que é brutal da nossa parte não fazer nada, mas o que fazer? Votar na Marta? Sei lá. Dou um cigarro e na falta de coisa melhor, continuo andando.
No frio, achar normal fica mais difícil ainda.
Conversas pela metade que captamos andando. Frases de efeito ou fora de contexto que podem querer dizer tanta coisa.
"Fulana, casa comigo?"
"Vai comprando as coisas."
"Ítalo! Vem almoçar!"
(silêncio)
"Traz ele junto!"
Etc., etc., etc...
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
"Ah que saudades eu tenho da aurora da minha vida..."

quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Allan Watts e afins

“Vemo-nos presos à contradição de encontrar a vida em meio a um quebra-cabeça muito desconcertante, capaz de nos causar muitos sofrimentos; ao mesmo tempo, temos uma vaga consciência da natureza ilimitada, infinita da vida. Desta maneira, começamos a procurar uma resposta a esse enigma.
A primeira forma de procurar é buscar soluções fora de nós mesmos... Por trás de nossas fachadas agradáveis e amistosas ferve um constrangimento considerável. Se eu pudesse raspar o verniz e ir um pouco mais fundo do que a superfície de qualquer pessoa, encontraria medo, dor e uma profunda ansiedade desvairada. Todos temos métodos para encobrir tais sentimentos. Comemos demais, bebemos demais, trabalhamos demais, assistimos à TV demais. Estamos sempre fazendo algo para encobrir nossa ansiedade existencial básica.
O que de fato queremos é uma vida natural. Nossas vidas são tão artificiais que realizar uma prática como a do zen, no começo é bastante difícil. Porém, assim que começamos a vislumbrar que o problema da vida não é algo externo a nós, teremos começado a percorrer o caminho."
Ontem comecei a limpar as dúvidas e transformá-las em ações. Arriscar.
Pode ser uma conversa com o chefe, um manual da FUVEST, um encontro adiado para resolver problemas do inventário, um mergulhar no processo de ensaio.
Nesse sentido, não é buscar "fora de si", mas traduzir essas encruzilhadas em ações, mesmo que não seja garantia de sucesso.
Tem uma passagem na Odisséia em que o Ulisses deve abandonar tudo e jogar-se ao mar. Algo como o "salto no abismo da fé".
A "vida natural" deve ser acreditar na vida. O "jogo da vida maior" da Clarice.
Então não é fácil, mas vale o esforço.