
Bandeira hoje.
Pequenos fragmentos, curtos, definitivos.
Uma sensação de memórias que vêm à cabeça entrecortadas, interrompidas, como uma sensação de memória mais que a memória: não se completam. Como um reencarnado em mim mesmo nesses últimos dias não consigo completar a lembrança, ela se interrompe antes de se completar e fica a sensação, só a sensação de algo que está aqui mas não se mostra. De um pensamento que se esconde. Sensação estranha.
Primeiro Bandeira. Curto e definitivo.
"Não te doas do meu silêncio.
Estou cansado de todas as palavras.
Não sabes que te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás, numa palpitação inefável,
O sentido da única palavra essencial
- Amor."
Segundo. Poderia estar no blog do poeta com o mesmo título que dei aqui outro dia para palavras soltas ao vento, "conselhos inúteis":
"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
As almas não se entendem. Porque são incomunicáveis.
Talvez por isso se fale tanto em "alma gêmea": só nessa idéia impraticável poderia haver a utopia de almas se comunicando. Corpos se comunicam. Talvez por isso, nessa era de internet, a falta de comunicação direta - de corpos, não de almas ou de intelectos à distância - faça com que o amor se acredite uma junção de almas que por definição não se encontram plenamente, sem um corpo que toque, sem uma pela que sinta outra pele, sem cheiro, sem bocas, sem etecéteras, sem reticências vividas em silêncios preenchidos e presentificados.
Bandeira, conclusivo:
"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar—
Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada."
A Pasárgada que chamei de Hydra, que chamei de tantos nomes, lugar de sonho e de realização onde na cama que escolhesse a mulher que queria estaria lá. Pasárgada cantada por tantos, tanto sonhada... Que diabos é o sonho senão a ante-sala do espelho onde olhamos a nós mesmos e dizemos: até a próxima utopia...
E com tantas bandeiras e tantos Bandeiras, resta neste trocadilho infame às 2h26 da manhã escolher entre os três ou as três. A aceitação do silêncio da voz que se cala distante mesmo que esse silêncio não seja de amor mudo, a certeza da que almas não se encontram mas corpos sim (ainda que o encontro dos corpos por definição seja mais breve que o desejado encontro utópico das almas) ou a fuga para a Pasárgada onírica onde os sonhos nos olham no espelho e dizem: "estamos aqui!"
E eu, nascido mais na primeira metade do século XIX que na década de 70, mais abestalhadamente idiota que herdeiro da pós-modernidade, penso em Hydra, que para mim é a Pasárgada do Bandeira e ainda quero a ilha cheia de gatos, onde não entram carros, onde a distância faz crer que lá será diferente, diferente, diferente...
E você que se acha melhor do que eu só porque sabe sofrer calado ou dar de ombros para as pequenas mazelas da vida, tudo bem. Estou aqui olhando a passagem na mão.





