sábado, 12 de julho de 2008

Wild is the Wind ou sobre os posts anteriores


Uma vez uma pessoa perdeu o pai e disse "Deus é mau ou ele não existe."
Achei um pouco egoísta, mas respeitei. Não tinha acontecido algo tão terrível comigo.
Quando minha mãe morreu Deus não passou a existir ou deixar de existir. E eu percebi que não precisava sofrer na própria pele algo terrível para me questionar sobre isso. O mundo está cheio de dor, injustiça e falta de sentido para pensarmos à vontade sobre se tudo isso faz ou não sentido.
A questão é: quando falo em "desistência", seu contrário não seria a "insistência".
Mas a "resistência". Existe uma ligeira diferença.
Percebe?
Enquanto isso toca "Wild is the Wind". Escolha: David Bowie, Nina Simone ou Cat Power.
Ah, tem a versão do Jeff Buckley também.
Qualquer um que não fique ao menos tocado por essa música é um facínora.
Pronto.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Como não podia deixar de ser...


... as coisas não têm um sentido.
Me desculpem, mas não têm.
Algo como o "salto no abismo da fé" ou "assinar uma carta branca para Deus". Essa é a vida.
Infelizmente agir "certo" ou "errado" é simplesmente estar em paz ou não com a própria consciência, não há um caminho exato para a felicidade ou a desgraça. Não há prêmio ou castigo - senão aqueles provocados pelo seu próprio caráter.
Qualquer um que tenha experimentado a sensação de ter perdido o manual de instrução sabe o que eu digo. A sensação de não saber o que fazer, como fazer, porquê fazer. E o mais fácil pode ser sucumbir ao estado de marionete consciente. Como se a revolta secreta dos fracos fosse aceitar a correnteza que os leva olhando com raiva para o rio. Eu sei que estou sendo levado, pelo menos não me debato mais e o meio sorriso desencantado no rosto é meu protesto silencioso.
Bem. Aí está a marionete. Pés, mãos, cabeça articulados. Ela é presa por cordas. Existe uma tesoura. Se cortar as cordas, o que acontece? Terá a marionete forças para seguir sem um condutor?
Quando a água pinga na madeira ela cria bolor e apodrece.
Se nem o condutor faz sentido, melhor o risco de cair.
Ou não?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ninguém se lembra do Léon Werth


"A Léon Werth


Peço desculpa às crianças por ter dedicado este livro a uma pessoa crescida.

Tenho uma boa desculpa: essa pessoa crescida é o melhor amigo que tenho no mundo.

Tenho ainda uma outra desculpa: essa pessoa crescida é capaz de compreender tudo, mesmo os livros para crianças. Tenho uma terceira desculpa: essa pessoa crescida vive na França, onde passa fome e frio. E precisa ser consolada. Se todas estas desculpas não forem suficientes, quero então dedicar este livro à criança que essa pessoa crescida um dia foi.

Todas as pessoas crescidas começaram por ser crianças. (Embora poucas se recordem disso.)

Por isso, corrijo a minha dedicatória:


A Léon Werth

quando ainda era uma criança.

Antoine de Saint-Exupéry"


A melhor coisa do livro que virou livro de misses não é o "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" nem a história dele desenhar um chapéu que na verdade era uma cobra que engoliu um elefante.


É a dedicatória ao amigo distante que um dia foi uma criança e a lembrança de que todos começamos por aí. Quem sabe uma esperança de que não matemos a criança dentro de nós.


Parece piegas mas a "vida de gente grande" atropela as coisas, como um trator.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Troll, basta-te a ti mesmo!"

"PEER
Deixa essa história de príncipe pra lá e vamos ao que interessa. Por bem ou por mal, a Rainha quis falsear a minha vista, e fazer uma incisão na minha córnea para transformar-me num troll. E eu, o que fiz? Resisti, jurei que nunca deixaria de ser quem eu era! Renunciei a tudo – ao amor, ao poder, às honrarias – para continuar a ser eu próprio, para ser fiel a mim mesmo. Pois bem, é isso que deve confirmar sob juramento no tribunal –
VELHA
Ah, mas isso eu não posso fazer.
PEER
Como assim? (...)
VELHA
Ao deixar o palácio, Vossa Senhoria partiu com a nossa divisa gravada dentro de si.
PEER
Qual divisa?
VELHA
Aquela frase cortante e definitiva, que distingue os homens dos trolls: “Basta-te a ti próprio!”
(...) Desde então adotou esse lema, com todo o empenho da sua alma.
PEER
Eu? Peer Gynt?!
VELHA (Chorando)
Ah, que ingrato! Você viveu sempre como um troll, embora não contasse o segredo a ninguém. Foi a nossa divisa que lhe abriu os caminhos na vida, foi ela que lhe deu riqueza, poder e opulência. (...)"

Final das apresentações do Peer Gynt ontem.
Na foto, "as inglesinhas" com Peer, em um dos seus vislumbres de grandeza.
Cada vez mais os links que a peça possui ficam claros, assim como a crítica ao individualismo da época (da época?)...
Parabéns e obrigado a todos.
Que a gente consiga não viver como um Troll...

sábado, 5 de julho de 2008

Lázaro


A profunda influência da redenção em nossas vidas.

O perdão dos pecados, a transcendência, a ressurreição.

Muita gente criticou por exemplo o caráter redencionista de alguns textos Românticos e mesmo Realistas, no teatro.


Coisas como Ibsen.


O acerto de contas com as personagens que surgem do passado. O acerto de contas com o passado. Que quase sempre leva a uma redenção final, ainda que esta não seja necessariamente uma forma de começar de novo. Às vezes é um fim. O encontro da situação limite final.


A questão é que se a gente pudesse pegar essa referência cristã descolando-a de uma sistema de crenças e assumí-la como uma espécie de mitologia ocidental da qual fazemos parte tudo seria mais fácil de assimilar ou negar, sem o peso de uma "religião institucionalizada". Os renascentistas fizeram arte à partir disso. Se acreditavam ou não naquilo, não importa - a potência mítica e de comunicação que este universo possui foi um trampolim para grandes obras.


A imagem acima por exemplo é uma pintura de Caravaggio sobre a Ressurreição de Lázaro.
O sujeito estava morto à dias e foi ressuscitado assim, na lata. Imagine você destruído ali, a lepra comendo solta o que sobrou da sua carcaça e alguém diz "levanta e anda" e você... Sai da cova, feliz e contente.
Não, não virei evangélico nem me converti aos Gideões Internacionais. Mas se a gente pegar isso tudo num nível simbólico, temos um exemplo maravilhoso da "ressurreição", "reinventar-se". Como se houvesse um "Cristo interno", nossa própria capacidade de auto-salvação.
Salvação - o que quer que seja - está ligada a essa capacidade. De reencontrar o caminho para a luz. O que quer que ela seja. Não com alguém fora de nós mesmos. Ou até com coadjuvantes importantes nesse processo. Mas que não dão a "benção final" nele.
Lázaro diz o "dá-me tua mão" segurando uma na outra.
Anastasis.
Pronto, agora posso colocar no orkut "tenho um lado espiritual independente de religiões".

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Fragments

Eu não assisto peças para não gostar delas.
Também não entro no teatro aplaudindo antes. Não entro aplaudindo nem vaiando antes da peça começar. E fui ao SESC Santana para ver o Beckett do Peter Brook.
Gosto da simplicidade, como quem assiste quase um ensaio, não um espetáculo nos moldes tradicionais de uma produção teatral. Gosto de despojamento do espaço vazio, da ausência de chapéus coco e maquiagem pálida, gosto dos atores de diferentes nacionalidades.
Se disser do que não gosto conto a peça para quem ainda não viu - ela estreou hoje - e como esse blog é extremamente visitado (coisa de duas ou três pessoas por dia, num bom dia) não decepcionarei vocês. Ok, isso foi uma piada.

Prestem atenção em "Rockaby" (cadeira de balanço, a segunda peça curta).
Eu vi a Sophia Micopoulo fazendo a mesma cena, dirigida pelo Terzopoulos. Maravilhosa.
Foi bom reencontrar o texto. Ver outra leitura dele. Relembrar momentos.
Acho que isso estalebece uma relação afetiva com o "Rockaby". Mas mesmo assim, acho que é o melhor momento da peça do Brook.

Nesse meio tempo contagem regressiva para "Peer Gynt" amanhã (hoje).
Reflexões com os Imaginários sobre Hamlet, processos e afins.
Papo com Juliana Jardim sobre Brook e outras coisas.
No meio, a lembrança de um sonho:

O sujeito entra em uma caverna. Anda dentro dela e encontra um buraco no chão, com uma escada daquelas verticais, de ferro. Vai descendo por ela até o final, onde está totalmente escuro e, ao largar a escada, há uma espécie de lago onde ele nada. Tudo escuro. Ele quer voltar mas não encontra mais a escada com a mão.

O que isso tem a ver com o Beckett?
Não sei. Tem?

Até outro dia (amanhã?) depois da estréia do Peer.
Acho bom dormir um pouco. Ou coisa parecida.

terça-feira, 1 de julho de 2008

"... porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum."


Assito "O Meu Pé de Laranja Lima" encenado por alunos, ex-alunos meus.
Me lembro de ter lido esse livro quando criança. José Mauro de Vasconcelos. Que deve ter feito surgir uma geração depressiva tanto quanto o Goethe inaugurou uma onda de suicídios com o "Werther". É triste que dói. E tinha mais. Tinha "O Veleiro de Cristal", "Doidão", "Rosinha, minha Canoa". Alguns da "Coleção Vagalume". Outros não. Todos muito, muito tristes.
Vendo a peça me lembro do livro e me lembro da infância. Que eu ainda quero crer não há muito tempo atrás. Nunca tive uma árvore no quintal para subir - aliás nunca tive quintal - muito menos conversei com ela. Nem apanhei tanto quanto o Zezé, coitado... Mas cada um tem suas lembranças, e a vida da gente guarda sempre coisas bonitas e coisas tristes, com saudade ou revolta, que ficam por aí, dentro.
Ao final, vem o depoimento sobre a "ternura da vida".
Ternura da vida era o português meio carrancudo dar figurinhas para a criança.
Ternura da vida era a mãe fazer serão para comprar um terninho para o filho.
Ternura da vida era o pai pobre se envergonhar disso quando o filho não ganha presente de natal.
Ternura da vida era o filho trabalhar de engraxate para comprar um maço de cigarro de presente para o pai.
E hoje, o que é, aqui e agora, ternura da vida?
Palavra que liga-se com "carinho, leveza e meiguice".
"... a vida sem ternura não é lá grande coisa. Às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum."
Mesmo se enganando, a vida sem ternura não é lá grande coisa.
Já dizia o Zé Mauro.