Uma vez Cyro mandou um email para seus amigos, contando uma situação que já havia ouvido dele mesmo, em sua casa. Ele entitulou o email como "A ESCRIVANINHA DE MEU PAI".
"(...) Eu sempre estive curioso pela escrivaninha de meu pai. Era uma daquelas que têm um tampo de madeira que corre e fecha a mesa e seus escaninhos. Sempre tive curiosidade pelo conteúdo que eu apenas entrevia e que meu pai defendia abrindo a escrivaninha para um rápido trabalho e então ele imediatamente, a fechava.
Não resistindo, compulsivamente, um dia resolvi violar a escrivaninha secreta de meu pai. Com uma faca levantei com facilidade o seu trinco e fiz correr a tampa abrindo para mim os seus segredos. Descobri que os ricos escaninhos guardavam além de cartões, fotos e papéis, pequenos objetos que me pareciam fantásticos, como meia dúzia de cartuchos vazios de balas de rifle que certamente ele guardara desde a revolução de 32 quando saíra fardado para uma aventura nunca imaginada. Havia ainda pequenos objetos como um estranho anel, caixinhas apenas recheadas de agulhas e grampos, um pente feminino de marfim com um ornato barroco, cartas com selos de impérios que eu desconhecia, estampilhas, um velho canivete, uma pedra, uma espátula dourada, um broche antigo, cartões-postais com imagens da França e Portugal, uma moeda chinesa, um pequeno frasco de um líquido azul com um rótulo em alemão.
Afinal, que relação amorosa meu pai tinha com aquela coleção? Por que o segredo?
Contei isso para meu analista, Horus Vital Brasil e ele me perguntou algo que resume a aventura humana:
- Cyro, você queria saber se havia amor antes de você?
Todas as circunstâncias nos são inéditas e é necessário saber a origem e o porquê desse desconhecido que chamamos Destino ou simplesmente Existência e se há amor que os sustente. Isto resume a aventura humana. (...)
Creio-me abençoado e, em muitos momentos difíceis ou gratificantes, lembro-me disso, e tenho a certeza de que essa idéia ou lembrança me envolve cosmicamente. E imediatamente sinto uma confirmação, uma resposta.
Sim, sou herdeiro: havia amor antes de mim.
Há atitudes até mesmo profissionais de alguém – por exemplo - que se torna um Antiquário e busca no passado das coisas belas o amor que as criou. O que então se torna a resposta à pergunta que ele faz sobre a existência do amor antes dele.
Nota-se muitas vezes que a escolha de um ofício é uma herança amorosa ou a procura dela e muitas vezes podemos declarar essa herança em uma obra poética - ou reclamá-la.
O amor herdado é algo muito mais rubro e tépido do que o sangue. E também pode ser nosso testamento.
Eu procurei saber dele na escrivaninha de meu pai.
22 de Agosto de 2009 - Quando se comemoraria o 109º Aniversário de meu falecido pai.
Cyro del Nero"
Na véspera da reestreia de "Niklasstrasse, 36" e com a estreia de "Uma Alice Imaginária" programada para outubro, penso sobre minhas escrivaninhas e no sentido claro e profundo que as palavras de Cyro - ele mesmo parte da memória do amor que havia antes de mim - fazem agora.
Profundo agradecimento aos que vieram antes de mim.
"O resto ninguém sabe o que será, mas será tão milagroso quanto tudo o mais."
CDN
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