quarta-feira, 29 de julho de 2009

Vida pós Orkut

Aliviando a vida virtual para cuidar mais da real.
Orkut além de divulgação das peças, não serve para muita coisa. No início ok, você achava amigos de anos atrás, trocava duas ou três mensagens e pronto. A maioria volta para o passado.
Blog ainda pode perdurar um pouco, mas também não sei até que ponto vale escrever aqui. Tenho escrito para mim mesmo, sem publicar.
E-mails são necessários, mas mesmo eles de vez em quando se enchem de lixo - spam, corrente, além dos e-mails anônimos de todo gênero.
E é tão fácil identificar um IP hoje em dia... Imagina se todos nos déssemos ao trabalho de ir atrás de quem manda essas coisas... A Delegacia Virtual da Polícia Civil ia ficar lotada de boletins de ocorrência...
Em todos os casos, fica-se ainda com o risco da má interpretação do que se escreve, quando não se tem a pessoa na frente - já tratamos disso em outro post. E a gente se conforma com o simulacro e com a imperfeição, ao invés de tentar um outro tipo de vida. Ok, é possível as duas coisas caminhando juntas, o virtual como ferramenta mesmo. Mas eu acho melhor tentar mudar na dose mesmo.
Já vinha adotando a prática de não adicionar quem não conheço, não abrir e-mail de remetente desconhecido, não clicar em links suspeitos, não perder tempo na net em casa já que o dia todo passo na frente do computador.

Enfim, se a gente fizer as contas perdemos muito tempo nisso. É uma ferramenta, mas não substitui a vida de verdade. Por via das dúvidas, vamos aliviar.
Isso explica a futura média baixa de posts por aqui...

sábado, 25 de julho de 2009

Romper o pacto de mediocridade com a vida.


Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?

O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro.

Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? Assim como uma criança pensa para o nada. E ser esmagado pelo acaso.

Para que eu continue humano meu sacrifício será o de esquecer? Agora saberei reconhecer na face comum de algumas pessoas que – que elas esqueceram. E nem sabem mais que esqueceram o que esqueceram.

Estou tão assustado que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está me dando a mão.

Clarice Lispector

A vida des-imaginada é menos azul.

Liniers Macanudo

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Macanudo de novembro

Tirinha do Macanudo no dia do meu aniversário do ano passado.
Melhor visualizada no blog dele que está nos meus favoridos aí do lado (em 16 de novembro de 2008).

Se isto não é um sinal eu não sei o que é.
Que tarô que nada. Que horóscopo que nada.
Leiam Macanudo todos os dias.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

o que eu vi

Não sei o que vi ou o que fazer com o que vi. De um verde translúcido, olhos. Não verdes, mas através da cor. Olhos de cais noturnos, cheio de adeus, olhos de docas mansas que criam trilhos de luzes que brilham longe dos olhos meus. Nos olhos de mistério que vi, navios e naufrágios, todos naufrágios meus.
Olhos oblíquos? Olhos de cigana dissimulada? Olhos. Que se agigantaram para além da obviedade da beleza dos verdes e azuis e se desenharam no espaço, um espaço imaginado de sonho. E de novo sonho de naufrágios e navios perdidos e sereias que choram no fundo do mar e tesouros dos quais só temos o mapa, mas caminhos impossíveis de trilhar.
Olhos vistos através do verde, não verdes, porque verde é o mar. E nele, a imensidão.
Olhos de Iara que canta - e como não seguir o canto? - ainda que remeta ao fundo do oceano.
Não sei o que fazer com o que vi porque o que vimos nunca é retratado - nem para outro, nem na nossa memória, nem na fotografia. Se o outro não há, se a memória é incerta e se a foto não houve, resta o que? Resta algo para além da memória que, como a arte, não é registro, mas tradução de algo. Tradução de memória, de sensação, de dor e de gozo, tradução de fome e de sede, tradução de cansaço e de insônia, tradução de angústia e de prazer, de espera e de realização, de amor.
Tradução. Não vivemos o mundo, traduzimos o mundo. Não sei como usar letras ou formas ou sons, apenas tateio na tentativa de devolver a impressão daquilo que vi, na esperança de que o eco de tudo, voltando para mim mesmo, eternize o objeto observado. Olhos.
E que se dane a maré, a raiva das ondas, a escrita na areia que a água apagou, que se dane o sol que não veio, o frio que dominou tudo, que se dane a praia distante de brilho de faróis solitários, e que se dane toda a racionalidade do mundo.

E pronto: que se dane Macchu Picchu, tão longe da praia e para onde faço questão de nunca ir. Que se dane inclusive se a grafia está correta ou não, que se dane o Google.

Ninguém pode me tirar as páginas traduzidas escritas dentro de mim.

Obrigado Vinícius, pela possibilidade de extrair do seu poema um pouco de inspiração.
Desculpem-me os incas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cânticos ou o dia em que o homem pisou na Lua


Cânticos (Cecília Meireles) - fragmentos

Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens...

Não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabe que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue:

É a passagem que se continua.

É a tua eternidade...

É a eternidade.

És tu.

(...)

Não digas onde acaba o dia.

Onde começa a noite.

(...)

Não digas onde começa a Terra,

Onde termina o céu.

Não digas até onde és tu.

Não digas desde onde é Deus.

Não fales palavras vãs.

Desfaze-te da vaidade triste de falar.

Pensa, completamente silencioso.

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

(...)

Adormece o teu corpo com a música da vida.

Encanta-te.

Esquece-te.

Tem por volúpia a dispersão.

Não queiras ser tu.

Queres ser a alma infinita de tudo.

Troca o teu curto sonho humano

Pelo sonho imortal.

O único.

Vence a miséria de ter medo.

Troca-te pelo Desconhecido.

Não vês, então, que ele é maior?

Não vês que ele não tem fim?

Não vês que ele és tu mesmo?

Tu que andas esquecido de ti?

(...)

Esse teu corpo é um fardo.

É uma grande montanha abafando-te.

Não te deixando sentir o vento livre

Do Infinito.

Quebra o teu corpo em cavernas

Para dentro de ti rugir

A força livre do ar.

Destrói mais essa prisão de pedra.

(...)

Sê o grande sopro

Que circula...

(...)

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

(...)

Não ames como os homens amam.

Não ames com amor.

Ama sem amor.

Ama sem querer.

Ama sem sentir.

Ama como se fosses outro.

Como se fosses amar.

Sem esperar.

Por não esperar.

Tão separado do que ama, em ti,

Que não te inquiete

Se o amor leva à felicidade,

Se leva à morte,

Se leva a algum destino.

Se te leva.

E se vai, ele mesmo...

(...)

Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca anda mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta-te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo,

Pelo teu corpo, que enlouqueceu.

(...)

Este é o caminho de todos que virão.

Para te louvarem.

Para não te verem.

Para te cobrirem de maldição.

Os teus braços são muito curtos.

E é larguíssimo este caminho.

Com eles não poderás impedir

Que passem, os que terão de passar,

Nem que fiques de pé,

Na mais alta montanha,

Com os teus braços em cruz.

(...)

Vê: formaram-se sobre todas as águas

Todas as nuvens.

Os ventos virão de todos os nortes.

Os dilúvios cairão sobre os mundos.

Tu não morrerás.

Não há nuvens que te escureçam.

Não há ventos que te desfaçam.

Não há águas que te afoguem.

Tu és a própria nuvem.

O próprio vento.

A própria chuva sem fim...

(...)

Não fales as palavras dos homens.

(...)

Faze a tua palavra perfeita.

(...)

Sê o que o ouvido nunca esquece.

Repete-te para sempre.

Em todos os corações.

em todos os mundos.

(...)

Renova-te.

Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro.

Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.

(...)

Eles te virão oferecer o ouro da Terra.

E tu dirás que não.

A beleza.

e tu dirás que não.

O amor.

E tu dirás que não, para sempre.

Eles te oferecerão o ouro d'além da Terra.

E tu dirás sempre o mesmo.

Porque tens o segredo de tudo.

E sabes que o único bem é o teu.

(...)

Não queiras ser.

Não ambiciones.

Não marques limites ao teu caminho.

A Eternidade é muito longa.

E dentro dela tu te moves, eterno.

Sê o que vem e o que vai.

Sem forma.

Sem termo.

Como uma grande luz difusa.

Filha de nenhum sol.

(...)

Tu ouvirás esta linguagem,

Simples,

Serena,

Difícil.

Terás um encanto triste.

Como os que vão morrer,

Sabendo o dia...

Mas intimamente

Quererás esta morte,

Sentindo-a maior que a vida.

(...)

Perguntarão pela tua alma.

A alma que é ternura,

Bondade,

Tristeza,

Amor.

Mas tu mostrarás a curva do teu vôo

Livre, por entre os mundos...

E eles compreenderão que a alma pesa.

Que é um segundo corpo,

E mais amargo,

Porque não se pode mostrar,

Porque ninguém pode ver...

(...)

Quando os homens na terra sofrerem

Sofrimento do corpo,

Sofrimento da alma,

Tu não sofrerás.

Quando os olhos chorarem

E as mãos se quebrarem de angústia

E a voz se acabar no rogo e na ameaça,

Quando os homens viverem,

Tu não viverás.

Quando os homens morrerem na vida,

Quando os homens nascerem na morte,

Na vida e na morte nunca mais

Nunca mais tu não morrerás.

(...)

Não tem mais lar o que mora em tudo.

Não há mais dádivas

Para o que não tem mãos.

Não há mundos nem caminhos

Para o que é maior que os caminhos

E os mundos.

Não há mais nada além de ti.

Porque te dispersaste...

Circulas em todas as vidas

Pairas sobre todas as coisas

e todos te sentem

Sentem-te como a si mesmos

E não sabem falar de ti.

(...)

Não digas que és dono.

(...)

Deixa os escravos rugirem,

Querendo.

Inutiliza o gesto possuidor das mãos.

Sê a árvore que floresce

Que frutifica

E se dispersa no chão.

Deixa os famintos despojarem-te.

Nos teus ramos serenos

Há florações eternas

E todas as bocas se fartarão.

(...)

O teu começo vem de muito longe.

O teu fim termina no teu começo.

Contempla-te em redor.

Compara.

Tudo é o mesmo.

Tudo é sem mudança.

Só as cores e as linhas mudaram.

Que importa as cores, para o Senhor da Luz?

Dentro das cores a luz é a mesma.

Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?

Dentro das linhas o ritmo é igual.

Os outros vêem com os olhos ensombrados.

Que o mundo perturbou,

Com as novas formas.

Com as novas tintas.

Tu verás com os teus olhos.

Em sabedoria.

E verás muito além.

(...)

Não busques para lá.

O que é, és tu.

Está em ti.

Em tudo.

A gota esteve na nuvem.

Na seiva.

No sangue.

Na terra.

E no rio que se coalhou em mundo.

Tu tiveste um destino assim.

Faze-te à imagem do mar.

Dá-te à sede das praias

Dá-te à boca azul do céu

Mas foge de novo à terra.

Mas não toques nas estrelas.

Volve de novo a ti.

Retoma-te.

(...)

Não faças de ti

Um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

Sem te falarem.

Sem lhes falares.

(...)

Sê o que renuncia

Altamente:

Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!

Abre a tua alma nas tuas mãos

E abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti

Nem esse último gesto!

(...)

O que tu viste amargo,

Doloroso,

Difícil,

O que tu viste breve,

O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos humanos,

Esquecidos...

enganados...

No momento da tua renúncia

Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Chocolate e peixe

Alguém coloca na net: "Saúde é um estado de completo bem estar físico, social e mental" segundo a OMC. A conclusão óbvia é a de que ninguém é saudável. Ou essa pessoa saudável deve ser muito chata. Ou flutua ao invés de andar. Mas deve ter uma pele meio verde.
Se você vir alguém verde, é porque a pessoa é bem saudável.

Hoje eu voltei a comer peixe depois de alguns dias sem - na realidade comi o atum da torta de atum que fiz, aliás estou acertando, caso a Rebeca do rebecaervas leia isso - na esperança de que o cérebro volte a funcionar bem.
Nossos órgãos deveriam ser como peças de carro - quando algo não anda bem, uma mecânica rápida resolve e pronto. Come peixe, as idéias se aclaram. A unha do pé quer cair, troca-se a peça. E pronto. Sem médicos, tratamentos, ou coisas assim - apenas um toque mágico alimentar ou coisa que o valha e tudo se resolveria.
Para males do coração um chocolate e nosso ânimo revigorado. Dor de cabeça, três copos d´água e a hidratação nivelaria tudo. Três ovos de codorna por dia aumentaria a potência sexual - sem falar nas cascas de melancia, recém eleitas uma espécie de Viagra natural. Anemia, um copo de fígado batido com agrião e adeus. Um pedaço de goiabada cascão para o fígado. Gripe suco de limão sem açúcar. Um copo e pronto. Vapt-vupf, como a Falecida do Antunes.
E claro, para desanuviar a mente, peixe. Peixe peixe mesmo, acho que atum em lata não resolve.

Ao menos assim eu comi o tal peixe. Não sei se os efeitos já começaram no cérebro, pois como diz Rosana "o neurótico constrói castelos no ar, o psicótico mora neles e o psicólogo cobra aluguel." Estou longe de cobrar o aluguel, mas devo estar entre o construtor e o locatário sem dúvida.
Talvez eu pense demais em coisas que não deveria, mas é inevitável as vezes. Por exemplo, acabo de perceber que resisto a colocar crase conscientemente por achar que o erro da ausência é menor que o emprego inadequado. Boa frase: "o erro da ausência é menor que o emprego inadequado". Escrevo e duvido dela. Emprego inadequado? Deu vontade de colocar crase.
A ausência é pior do que passar sem peixe. Ao menos de algumas coisas. Seria necessário muito chocolate para consertar.



quinta-feira, 16 de julho de 2009

Amor e restos humanos


Ele estava parado em frente à rua.
Passou um caminhão anunciando frutas. Do outro lado da calçada, um cego também passava.
Se fosse um conto de Clarice Lispector alguma epifania ocorreria. Talvez o cego precisasse estar mascando chicletes. Mas como ele não mascava - aparentemente - tudo continuou igual.
A temperatura fria igual, o dia acabando igual, as pessoas passando iguais, o telefone chamando sem ninguém atender igual, ele parado igual.
Até o cego prosseguia seu caminho. Mas ele igual.

Depois silêncio. Talvez a terra pudesse ser desabitada.
Talvez a solução para a vida fosse presentear todos os cegos com chicletes.
Ou dar sapatos novos às meninas que abraçadas aos livros enfrentam o frio da madrugada para ir à escola. Ou espalhar ratos ruivos mortos pelas calçadas de Ipanema. Ou namorar búfalos pelas grades do zoológico. Ou comer a primeira barata que aparecer em casa.

Cartas dentro de uma garrafa atiradas ao mar. Quem lê?
Se alguém lê, por que a maré teima em não trazer nada de volta?
Ele não tem respostas. Nem chicletes. Nem sapatos, nem ratos, nem tempo de ir ao zoológico ou estômago para comer baratas.

Estão plantando girassóis na Marginal. Talvez seja um bom começo.
Deviam ser ser artificiais. Pelo menos não morreriam.