terça-feira, 30 de junho de 2009

Pina Bausch

Não creio.
Estava agora pela manhã falando sobre ir na apresentação da Pina Bausch que acontecerá (aconteceria) em breve por essas bandas e agora vem a notícia de que ela morreu, hoje.

Me assusta esse equilíbrio precário da vida.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um Ícaro

Dizem que Ícaro voou alto demais e o calor do Sol derreteu a cera que colava as penas da sua asa e por fim caiu no mar. Eu não entendo muito do mito de Ícaro e corro o risco de chover no molhado, mas enfim...

Ontem me lembrei dele. E me veio a questão da superação.

Não sei se Ícaro se satisfez com seu vôo. Não sei se olhar o Sol tão de perto pode bem valer uma queda - ao menos um instante em que, secretamente, ele esteve em comunhão tão profunda com a grandiosidade da luz como nenhum mortal jamais esteve. Como o primeiro homem na Lua, que olhou a Terra de um ângulo jamais visto, ele olhou o Sol de uma perspectiva que o irmana ao astro rei na divindade: voando como um deus, não observando como um homem de pés no chão.

Mas gosto de pensar o mito de Ícaro de outra forma:

Ícaro subiu aos céus, tão alto que o Sol derreteu a cera de suas asas.
Ele não morreu na queda, todavia. Mergulhou em águas profundas e envergonhou-se pela derrota. Preferiu fazer-se de morto e desaparecer. Até hoje vive em projetos secretos, buscando conseguir ele mesmo - sem apoio de Dédalus, seu pai - novas asas que o levem para além do Sol.
É ele quem entra, secretamente, em nossas mentes, quando dormimos ou quando pensamos projetos inviáveis e grandiosos.

Com as penas que restaram de suas asas queimadas faz cócegas no nosso cérebro para que ele ria do impossível.

sábado, 27 de junho de 2009

No mesmo dia que o Michael


Farah Fawcett morreu no mesmo dia que o Michael.
Só por isso essa foto não inundou os jornais ontem.

O moleque de 11 anos do post abaixo ficou triste pela morte do Jacko, os moleques de 11 anos de hoje prefeririam essa imagem ao invés da do Rei do Pop, mesmo que fosse numa manchete-obituário.

Descanse em paz, eterna pantera!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Descanse em paz, Jacko


Tudo bem... Concordo que nos últimos 20 anos mais ou menos ele foi ficando cada vez mais estranho. Tanto fisicamente quanto psicologicamente - uma coisa refletia a outra, constantemente. Mudou de negro para branco, de branco para sei lá o que. Quase um extra-terrestre. Esquisito, recluso, supostamente pedófilo, cheio de manias, traumas, excentricidades.
"Rei do Pop" e outros rótulos. Dono de "Neverland". Uma espécie de alienígena terráqueo.

Mesmo assim eu fui fã desse camarada aos 11 anos. Até hoje me orgulho em lembrar que enquanto as meninas ouviam Menudo, eu ouvia Michael Jackson - Michael Jackson MESMO, negão, cheirando à Jackson Five ainda, da época do "Off the Wall" e de "Thriller". Isso tudo no vinil, voltando o braço do toca discos bem no ponto onde o Vincent Price mandava o "Darkness falls across the land the midnight hour is close at hand creatures crawl in search of blood to terrorize y'alls neighborhood"... Ou no solo de guitarra do Eddie Van Halen em "Beat it"...

Eu vi ele começar a usar luva e revelar o cabelo queimado depois de um acidente gravando um comercial da Pepsi - acho que foi isso - e tentei gostar de Pepsi por causa dele. Passei um dos maiores ridículos da minha vida - só percebo isso hoje - tentando fazer aquela andadinha para trás em uma festa, aos 13 anos mais ou menos.

Colei poster do cara na parede do quarto. Lembro até hoje que comprava esses posteres e o que eu mais queria era o "Thriller", enorme, com o Michael cercado pelos mortos vivos. Alto bom gosto para decorar a parede do quarto (os posteres do Michael só foram substituídos anos mais tarde por fotos da Luma de Oliveira quando foi eleita Miss Playboy no mundo todo - mas essas foram tiradas logo, para não deixar o quarto com ar de borracharia).

Depois do álbum "Bad" começou a papagaiada. Acho que no começo dos anos 90 ele começou a surtar de vez. Talvez o maior exemplo da nossa época de como o sucesso pode literalmente deformar um cara.

Deixando de lado tudo isso, confesso que foi muito estranho saber que ele tinha morrido. Tem um cara de 35 anos que leva isso na boa, faz piada, comenta meio rindo com as pessoas que obviamente não estavam acreditando.

Mas tem um moleque de 11 aqui dentro profundamente triste também.

Quinta-feira


Chuva fina pela manhã.
Queria saber tocar violoncelo e me instalar no meio de alguma avenida, entre os carros, mesmo que ela me molhasse um pouco.
Nunca se sabe o que colocam no chapéu de um músico de rua.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Para que montar uma peça?

Depois que o Peer Gynt não encampou como projeto, voltamos nossos olhos para Strindberg.
Primeiro "A Sonata dos Espectros". Depois o "Rumo a Damasco" (ainda a primeira parte).

Confesso que não sou de comprar livros pela capa, mas um bom título é um ótimo cartão de visitas. Tem peças que me dão vontade de ler, me instigam a curiosidade e a imaginação só pelo título, digo isso para além do óbvio, uma curiosidade que já aguça a mente antes mesmo de começar a leitura. Foi assim com "Quando Despertarmos de entre os Mortos", do Ibsen. Um título que já tira o seu fôlego antes de saber qualquer coisa sobre a peça. E geralmente a expectativa se cumpre.

"A Sonata dos Espectros" é o mesmo caso. Só de ler isso me lembro que da primeira vez que me deparei com o texto, na biblioteca da ECA, datilografado, fiquei muito curioso e retirei a peça. Hoje me deparo com ela novamente, o mesmo texto ali, datilografado e agora, com uma tradução em espanhol a disposição, percebo que bem ruim...

Mas tudo isso para falar de peças em geral. As que montarei e as que talvez jamais monte.
A pergunta é: para que montar uma peça?

Há pessoas que acham que a dramaturgia existente não dá conta do nosso mundo atual. O caminho seria a dramaturgia contemporânea, o processo colaborativo ou as adaptações de literatura. Entendo, mas não concordo totalmente. Os clássicos sobreviveram não porque se bastaram em sua época, mas porque ecoam pelos séculos tendo ainda muito a dizer, o que não significa que precisem ser feitos com um manual de instrução em anexo. Somente alguém muito radical poderia afirmar que um Hamlet, um Édipo ou um Godot (pegando um exemplo mais atual) não têm mais valor nos dias de hoje.

"Inovar" ou "criar" não significa, necessariamente, partir do zero. A leitura que se dá a um clássico pode (e deve) ter muito de inovação e criação.

Mesmo assim: para quê montar uma peça? Para quem?

Se é só uma pesquisa estética não vale a pena. Tem que se ter algo a dizer.
Essa é a busca.

Como dizia Grotowski:
"Não monto uma peça para dizer aos outros o que eu já sei. Só depois do espetáculo pronto é que talvez tenha aprendido algo."

Temos que aprender. E acreditar que estamos dizendo algo que vale a pena ser dito.
Foi assim com o Quixote. Têm sido assim, apesar de tudo.

Às vésperas de talvez levar o cavaleiro à terras portenhas, vem à mente (espero que as três crases estejam certas) a necessidade de encontrar algo que mova não apenas a cabeça, mas o coração também.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Conversa no sebo

Saindo de um sebo, as 12h30.
Entra um sujeito de uns três metros de altura.
O vendedor vem atendê-lo, percebo que também possui uns 2,75m de altura.

Vendedor: Posso ajudar?
Sujeito de três metros: Ah sim. A parte de arquitetura fica aonde?
Vendedor: Ali. (indica a seção)
(pausa)
Vendedor: Posso perguntar uma coisa?
Sujeito de três metros: Sim?
Vendedor: Onde você compra calças?

Este diálogo, real, pode ser ficcionado e adaptado para anões, obesos mórbidos, centopéias e cetauros. Funciona da mesma forma.