Depois que o Peer Gynt não encampou como projeto, voltamos nossos olhos para Strindberg.
Primeiro "A Sonata dos Espectros". Depois o "Rumo a Damasco" (ainda a primeira parte).
Confesso que não sou de comprar livros pela capa, mas um bom título é um ótimo cartão de visitas. Tem peças que me dão vontade de ler, me instigam a curiosidade e a imaginação só pelo título, digo isso para além do óbvio, uma curiosidade que já aguça a mente antes mesmo de começar a leitura. Foi assim com "Quando Despertarmos de entre os Mortos", do Ibsen. Um título que já tira o seu fôlego antes de saber qualquer coisa sobre a peça. E geralmente a expectativa se cumpre.
"A Sonata dos Espectros" é o mesmo caso. Só de ler isso me lembro que da primeira vez que me deparei com o texto, na biblioteca da ECA, datilografado, fiquei muito curioso e retirei a peça. Hoje me deparo com ela novamente, o mesmo texto ali, datilografado e agora, com uma tradução em espanhol a disposição, percebo que bem ruim...
Mas tudo isso para falar de peças em geral. As que montarei e as que talvez jamais monte.
A pergunta é: para que montar uma peça?
Há pessoas que acham que a dramaturgia existente não dá conta do nosso mundo atual. O caminho seria a dramaturgia contemporânea, o processo colaborativo ou as adaptações de literatura. Entendo, mas não concordo totalmente. Os clássicos sobreviveram não porque se bastaram em sua época, mas porque ecoam pelos séculos tendo ainda muito a dizer, o que não significa que precisem ser feitos com um manual de instrução em anexo. Somente alguém muito radical poderia afirmar que um Hamlet, um Édipo ou um Godot (pegando um exemplo mais atual) não têm mais valor nos dias de hoje.
"Inovar" ou "criar" não significa, necessariamente, partir do zero. A leitura que se dá a um clássico pode (e deve) ter muito de inovação e criação.
Mesmo assim: para quê montar uma peça? Para quem?
Se é só uma pesquisa estética não vale a pena. Tem que se ter algo a dizer.
Essa é a busca.
Como dizia Grotowski:
"Não monto uma peça para dizer aos outros o que eu já sei. Só depois do espetáculo pronto é que talvez tenha aprendido algo."
Temos que aprender. E acreditar que estamos dizendo algo que vale a pena ser dito.
Foi assim com o Quixote. Têm sido assim, apesar de tudo.
Às vésperas de talvez levar o cavaleiro à terras portenhas, vem à mente (espero que as três crases estejam certas) a necessidade de encontrar algo que mova não apenas a cabeça, mas o coração também.