quinta-feira, 30 de abril de 2009

Gripe Suína


Transcrevo aqui o email que recebi:

GRIPE SUÍNA: SINTOMAS E ORIENTAÇÕES

Já é pandemia, ou seja, acomete mais de um continente. Os casos fatais no México chegam a 150 em 4 dias, supostamente. Casos já diagnosticados nos Estados Unidos, Canadá, Espanha, França, Austrália, Nova Zelândia, Japão. Casos suspeitos no Brasil: 13.

SINTOMAS:

FEBRE ALTA (39° OU MAIS), DORES MUSCULARES, DORES ARTICULARES, ARDÊNCIA NOS OLHOS, DOR DE CABEÇA INTENSA.
PODEM OCORRER TOSSE, VÔMITOS E DIARRÉIA

CUIDADOS:

EVITAR AGLOMERAMENTOS

PREVENÇÃO

TOMAR 1G DE VITAMINA C /DIA;
EXTRATO DE PRÓPOLIS 30 GOTAS 2X/DIA
GARGAREJAR COM ÁGUA MORNA, LIMÃO E SAL

ORIENTAÇÕES EM CASO SUSPEITO:

FONE SAÚDE: 0800-610-1997
Bom, como sou meio hipocondríaco, vou no meu horário de almoço comprar vitamina C, extrato de própolis, limão e sal. E começar com a profilaxia logo.
Falando em almoço, para garantir, não vou comer carne de porco. Ok, o problema em ingerir carne de porco é cisticercose, não gripe suína, mas nunca se sabe. Melhor evitar.
Fiquei com medo do termo "pandemia". Muito. Parece coisa de filme catástofre.
"PANDEMIA" - direção Roland Emmerich; com Keanu Reaves, Catherine Zeta-Jones e Christopher Walken. Sinopse: após ser internada com um estranha gripe, uma repórter ambientalista (Zeta-Jones) é isolada sem maiores explicações por uma equipe médica em Nova Iorque. O chefe do hospital, Dr. Russell (Reaves) tenta descobrir o estranho mal que acomete a reporter, mas sofre pressões do Ministro da Saúde estadunidense (Walken) para abafar o caso.
Aliás, por falar em medo, existem 13 casos suspeitos no Brasil. Como vou estrear uma peça daqui a duas semanas, já olho o elenco desconfiado, quando alguém espirra.
Por via das dúvidas, vou comprar um kit anti gripe suína para todos. E proibir todo mundo de comer carne. E de assistir filmes-catástofres. E ainda por via das dúvidas, de comer frango - vai que volta a gripe aviária. E de comer carne de boi também - sempre o risco da vaca louca. E de aglomerados. Nada de aglomerados. Ir ao teatro, nem pensar.
É, acho que estamos mal, muito mal.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aspirinas

Se você acorda com dor de cabeça o azar é seu. Outro dia li em algum lugar uma frase mais ou menos assim: "a vida é sua e o problema é que ninguém tem nada a ver com isso".
E não vou colocar citações, textos em itálico. No máximo as aspas acima como releitura de algo semelhante ao transcrito.
Acordar com dor de cabeça não é assunto que interesse aos outros, mas só a você. Pensando nisso tomei um café para melhorar, mas acho que só a insistência em manter-se ativo ao longo do dia pode fazer a cabeça sarar. Ou não.
Pior é acordar amando alguém um dia e odiando no seguinte, ou querer fazer medicina e no outro dia engenharia química, decidir algo vital e depois mudar de opinião, ir dormir corintiano e despertar palmeirense. Já ia citar o Kafka dizendo que o despertar é o instante mais perigoso do dia, mas me controlo. Sem citações. Ou pelo menos sem itálico.
Ao menos acordar com dor de cabeça não é acordar metamorfoseado. Pelo menos não em um inseto monstruoso.
Se bem que insetos monstruosos não acessam e-mails, não falam ao telefone, não digitam, não pegam ônibus, não vão a bancos, não pagam contas no final do mês. Apesar de odiados pela humanidade, gozam do temor alheio e vivem sem preocupações. Ia citar um texto do Luis Fernando Veríssimo com o mesmo nome do de Kafka, mas me controlo. Pelo menos não usando itálico, pelo menos tentando falar por mim mesmo sem intermediação.
E o inseto segue odiado, mas alheio às mazelas humanas.
Deve haver alguma vantagem nisso.
Melhor seguir com a dor de cabeça...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Natsu gusa ya
tsuwamono domo ga
yume no ato."

domingo, 12 de abril de 2009

... depois de quase três anos estou sentado no chão do apartamento vazio.
Estou me sentindo um pouco como a personagem do "Nome Próprio", só com o computador ainda ligado no meio da sala.

Vou me despedindo das coisas e das lembranças daqui.

Com a certeza de que de algumas não me despeço nunca.

Beijos e abraços.
@>----
Até uma conexão, em um novo endereço.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O Teatro e o dia mundial do Teatro

Parece que uma tradução ao pé da letra da palavra grega theatron (que originou "teatro") é "lugar de onde se vê". Ou seja, o theatron na origem era a platéia, não o palco. Como se o foco, no final das contas, fosse o público, não o ator. A ele cabe comunicar e fazer chegar algo a quem está sentado - ou de pé - à sua frente. Ele reflete e amplia os sentimentos e as aspirações de quem está diante dele.
Tenho acompanhado muitos espetáculos universitários no TUSP. Alguns com bom público, outros menos, mas boa parte dos trabalhos das escolas (CAC, EAD, UNESP, UNICAMP...) é assistido, em sua maior parte, por alunos das mesmas escolas. Em escala menor, quase sempre é o que acontece no circuito comercial: quem assiste teatro? Quem faz teatro, geralmente.
Dia 27 de março foi o dia mundial do teatro. Muito bem. Houve manifestações da classe em favor de alterações nas leis de incentivo, o que é extremamente legítimo. Mas o buraco é mais embaixo.
Precisamos viabilizar nosso trabalho. Garantir leis que nos apóiem vai ajudar nossa sobrevivência, no sentido mais direto - termos dinheiro para bancar nossas produções, para comer, para pagar nossas contas, etc. Mas vamos continuar assistindo uns aos outros.
Garantir nossa sobrevivência como artistas requer algo mais. Requer público, formação de público, formação do olhar do espectador.
Sim, eu quero viver dignamente da profissão que escolhi. Mas quero que me assistam. Não só meus colegas de profissão, mas o comerciante do bairro, a dona de casa, o estudante da escola pública, o universitário da escola de engenharia, o garçom que vai entrar no serviço depois da minha peça, o jornaleiro da banca da esquina, o zelador do meu prédio. Quando esse povo irá ao teatro? Não precisa ver só a minha peça, vai no Sesc ver o Pret-a-Porter do Antunes, vai lá no TUSP ver a Mostra Experimentos, vai no Oficina ver se é todo mundo pelado mesmo, vai na sede da Cia Livre ver o último final de semana do Vem-Vai, vai de metrô no Centro Cultural acompanhar a programação de lá...
Sim, eu quero ter leis que me amparem e dignifiquem o meu trabalho. Mas a classe não pode se reunir só com o pires na mão. Por que ninguém fez um fórum aberto de artistas para discutir formas de criar um público de teatro? Na América Latina existem muitas Escolas de Formação do Espectador, aqui a discussão é recente. Não somos um feudo auto-suficiente onde uns se alimentam dos outros. Precisamos de dinheiro sim, mas precisamos de troca. Não com o meu amigo diretor, minha amiga atriz, meu colega de escola de teatro, o cenógrafo que trabalha comigo, o sonoplasta, o professor da universidade de teatro, pelo menos não só eles.
Precisamos do garçom, do jornaleiro, do zelador, do estudante de exatas, precisamos inclusive do empresário que se torna público e não apenas investido potencial, precisamos da dona de casa, do adolescente do cursinho, da comunidade da periferia, do punk, do emo, do clubber (existem clubbers ainda ou eles mudaram de nome?), do nerd, de quem quiser aparecer.
É legítimo e necessário lutar pelas Leis de Incentivo.
Mas a classe precisa se unir para discutir o futuro do teatro como arte, não só como profissão.
Mais do que dinheiro, a sobrevivência do Teatro está em ter a quem servir.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Reações Adversas


Segunda-feira, peça "Reações Adversas" aqui no TUSP.
A peça começa e termina com uma cena onde estão 4 corações de porco, bem parecidos com o coração humano que você vê aí acima. "Você vê" é uma figura de linguagem interessante. Esse coração aí de cima é uma imagem que não podemos ver em vida - ao menos em vida de seu dono. E a cegueira que temos pelos corações - nossos e alheios - não parece ter cura. Resta o quê? Qual seria o método Braille para compensar?
Quero olhar e ver o coração como no filme da Amelie Poulain.
Que ele bata, esteja vivo, e que a ignorância, o medo, a amargura, o rancor e tudo o mais não estejam ali. Só uma ternura esquecida e um olhar ingênuo sobre as coisas e o mundo.
Será que ele existe - esse coração - ou assim como na peça "Reações Adversas" é um coração de porco, que parece humano mas não é?

sexta-feira, 27 de março de 2009

à sombra de Godot

"Esperando Godot" só não é a peça mais importante do século XX se alguém escreveu algo melhor e deixou escondido. Eu ia começar esse texto dizendo "eu acho que..." mas resolvi mudar porque eu não acho, é certeza mesmo.
Lembro de uma entrevista do Gerald Thomas em que ele contava sobre um importante crítico de teatro do New York Times que na estréia americana da peça destruiu a encenação em sua coluna, dizendo que em resumo era uma obra onde "nada acontece em dois atos". Esse mesmo crítico, anos depois, em sua última coluna antes de aposentar-se, dizia que "Esperando Godot é a obra de arte mais importante do século XX. Estou me despedindo da crítica hoje porque se eu não consegui perceber isso há (x) anos atrás, certamente não serei capaz de avaliar o que acontece hoje."
Bom, depois que você tiver lido o Godot (direito, não como o crítico do New York Times) você vai ver que sua vida nunca mais será a mesma. Ok, você pode ler superficialmente até se divertir com a peça, vendo dois palhacinhos fazendo jogos divertidos enquanto o tempo passa. Pode rir de encenações idiotas onde o Godot aparece, onde muda-se o texto para Dagô, Gordinho ou coisa que o valha, onde cortam sem dó o Pozzo e o Lucky (para não falar do Menino, por que esquecem dele sempre?) e outras ações de "liberdade" com o texto...
O que o Beckett fez foi simplesmente genial. Pode-se ler de várias formas. Com desesperança, com esperança (afinal de contas há um Menino que traz uma mensagem de ALGUM lugar), com graça, com solidão, com distanciamento, com humor, com pessimismo.
E você sempre fica à sombra de Godot.
Mais do que NUNCA vir, ele SEMPRE volta.