quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Samsara


Samsara em sânscrito quer dizer peregrinação, literalmente. Palavra de suma importância na filosofia budista, essa peregrinação diz respeito ao ciclo de morte e renascimento que a alma cumpre até a atingir sua libertação. Guardadas as devidas proporções, esse ciclo de morte-renascimento acontece em vida, o tempo todo. Desprender-se de muitas coisas, ligar-se à muitas coisas. Nascer e morrer todos os dias, reinventar-se, redescobrir-se.
Sabe qual o problema? É que a gente sofre. Sofre muito.
Às vezes por besteira, mimo ou frescura. Outras não. Mas não adianta relativizar o sofrimento e pensar que sempre tem alguém pior, como se eu precisasse estar morando na rua e passando fome ou fumando crack para disfarçar a dor para ter direito a me sentir mal. Da mesma forma com que os "filhinhos de papai" agigantam problemas idiotas, tem um monte de gente que cultiva quase que um orgulho por ter "direito" de reclamar da vida, já que são menos favorecidos. Eu respeito a sua favela amigo, mas quando um parente meu morre a minha dor é igual à sua, quando uma pessoa que eu considero me trai minha decepção não é menor do que a sua, quando eu sou mandado embora do emprego meu sentimento de humilhação é parecido com o seu, se descobrem um câncer sem tratamento tanto faz morar no Horto Florestal ou em Capão Redondo, o corpo só vai definhar no meio de uma paisagem mais bonita ou mais feia.
Claro que excetuando os extremos tem muita frescura. Mas mais do que pensar que eu posso ser feliz porque tem gente pior - isso é filosofia de livro de menina da pior espécie - eu prefiro pensar que as coisas passam, e se transformam. Eu não tenho que me comparar com ninguém para me resgatar do meu próprio sofrimento... É monstruoso ter que ler uma notícia de assassinato na periferia, de criança molestada pelo pai, de grávida viciada em cocaína ou de traficante trocando tiros com a polícia no meio de um pátio de escola para achar que a minha vida é boa. Ele precisa ser boa tendo ela mesmo como referência. Eu preciso ultrapassar o meu sofrimento e a minha dor sem precisar que me lembrem que tem gente em estado pior que o meu. Isso, com um mínimo de bom senso, eu já deveria saber.
Mas por que a "frescura"? Porque estamos no meio de tanto consumismo, de tanto culto à imagem, de tanta superficialidade que a competição e a necessidade de aceitação aumenta, a ponto de criar um contexto onde temos que entrar em um "padrão", temos que ser "aceitos", já que o mundo é dos lindos, bem sucedidos, dos consumidores ativos, dos "globalizados", dos "contemporâneos". E a gente quer se encaixar, sem perceber. Ou se revolta. Entre um lado e outro, o que há? Ou estereótipo de "estou dentro do sistema" ou estereótipo do "revoltado". Fazer discurso contra o "sistema" é fácil, como transformar em ação? Falar das mazelas do mundo é bacana, mas como transformar isso em uma causa?
Mas mesmo isso passa. A roda completa mais um giro e mesmo em uma sala de piso preto a gente se lembra da importância de voltar a sonhar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só um adendo:
alguém me explica por que o adsense resolveu colocar aqui do lado um anúncio de cemitério?
será que estou mórbido demais sem perceber?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Feriado, Bienal, Fuvest e etc.


E vem um feriado para quebrar a rotina.

Vamos por partes.


Em primeiro lugar, tive a brilhante idéia de ir à Bienal, já que inclusive comentei sobre ela antes de tê-la visitado, sobre a polêmica do andar vazio. Pois agora posso expressar minha opinião com conhecimento de causa mesmo, estive lá.


Andar vazio? Na realidade, parece que todos os andares estão vazios. Uma sensação de "vazio" no pior sentido, não da reflexão, mas como se estivéssemos sendo enganados. Poucas obras, sem a menor preocupação em indicar para você, público, o sentido delas estarem ali, sem acolher o visitante. Vazio no pior sentido - nem didatismo, nem choque, nem conservadorismo, nem abstração, nada mesmo. Uma impressão de que aquilo tudo é um trote, que as obras foram retiradas dali e que o Pavilhão ficou aberto apenas para dizer que algo acontece.

De tão mal-humorado, me recusei a descer pelo "escorregador". Não queria correr o risco de guardar uma lembrança boa sequer daquilo tudo.


Depois: Fuvest.

Ok, para quem não estudou nada literalmente acertar 50% da prova já está de bom tamanho. Vamos ver se a nota de corte sobe - o que eu acho bem provável, já que todos estão dizendo que a prova estava mais fácil que a do ano passado.


"Romance" com o Wagner Moura é um filme despretensioso, bem no jeitão das minisséries e especiais que o Guel Arraes dirige na Globo. A Letícia Sabatella é um pouco forçada no papel, o enredo não tem nada de especial e o Nanini e o Wilker foram chamados especialmente para fazerem Nanini e Wilker... Mas é bonito em alguns momentos sim. E o Wagner é um grande ator, o que já faz qualquer coisa valer a pena - raro ver um bom ator MESMO no cinema, sem se repetir, sem cair no naturalismo puro e simples... E para quem faz teatro, esse tipo de trama envolvendo os bastidores e a vida "real" em paralelo com as produções, ensaios, etc. em algum ponto toca. Por identificação, por crítica aos estereótipos as vezes, por negação. E ele nos faz entrar na história, uma história que talvez outro ator não nos convenceria e faria o lado negativo - da obviedade, do deja vu, etc - falar mais alto.
Parece que mais do que uma "boa história", estamos sentido falta de bons "contadores de história".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Aniversário


Ontem completei mais um.
E não é que foi bem melhor que o do ano passado?
:-)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Jogos na hora da sesta


E lá estavam todos eles. Ou quase todos.
Depois de um ano praticamente, reunidos em um mesmo palco, agora mais claro, talvez menos soturno, aparentemente menos soturno pelo menos.
"Jogos na hora da sesta" - com João, Socleson, Rita, Marcella, Paula, Paulinha, Natália, Rodrigo, Nadia, Stefânia, Rose.
Personagens que são trajetórias. Atores usando os próprios nomes e jogando, como crianças, revelando e camuflando a crueldade.
Fecha-se um ciclo. De agora em diante, eles completam sua passagem pela Universidade. Jamais ela será a mesma para eles - por mais que continuem seu contato com aquela estrutura, será agora como alunos formados. Concluíam sua graduação.
E de agora em diante, meu último vínculo afetivo com a Universidade também se conclui.
Parabéns, merda e obrigado por terem subido, mais uma vez, no aparelho. E de lembrarem que eu fui um dos operários em San Diego.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Eco e Narciso


Outro dia conversava com uma amiga e surgiu essa história. Eco e Narciso - e como algumas relações reproduzem o mito. Não basta o narciso, às vezes há um eco que cumpre também sua função - a de ecoar o narcisismo alheio.

Demora um pouco para perceber que nem um nem outro é saudável.
Deixemos esse povo afogado, sob as águas.
Como a Ofélia.
Mas essa é outra história.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"A Balada do Soldado Morto" ou lendo "Nada de Novo no Front"


A Balada do Soldado Morto
(tradução e adaptação por Antonio Cestari)
Já era a quarta primavera em guerra
E a paz não apareceu
O soldado decidido espera
E como um herói morreu.
Mas como a guerra não terminou
O rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu antes do fim o coitado.
O verão esquentava a sepultura
E o soldado jazia sem reclamar
Até que uma noite muito escura
Chegou ali um médico militar.
A comissão médica aguardada
Pelo cemitério adentrou
E com uma pá santa e sagrada
O soldado exumou.
O médico com precisão o soldado olhou
Ou pelo menos o que deste sobrava
O médico, o soldado por apto achou
E que este do perigo se esquivava.
Saíram e levaram consigo o soldado
Azul e linda a noite por ser
Podia-se, sem o capacete armado
Da pátria, as estrelas ver.
Sobre ele aguardente derramaram
Pois já apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta vadia.
E como o soldado a defunto cheirava
Um padre ia em frende ao andor
Pela cidade nuvens de incenso espalhava
Para encobrir o fedor.
Fazia um bumbum tralalá
A banda na frente da procissão
Para que o soldado marchasse
Como aprendera no batalhão.
Fraternalmente pelos braços, então
Dois enfermeiros o soldado erguia
Para que não caísse no chão
Pois isto, acontecer não podia.
Sobre o seu terno mortuário
De preto, branco e vermelho pintado
Assim carregando-o, não se via
Entre tantas cores; o defecado.
Um homem de fraque marchava na frente
Com sua cabeça toda empinada
E como um bom alemão decente
Seguro de seu dever pela pátria amada.
E assim marchavam com seu bumbum tralalá
Pelo escuro caminho alarde
E o soldado marchava cambaleando
Como floco de neve na tempestade.
Gritam os gatos e os cachorros por vezes
Assoviam no campo os ratos de contra:
Não queremos ser franceses
Porque isto é uma desonra.
E quando pelas cidades passavam
Todas as mulheres estavam lá
Brilhava a lua cheia, as árvores se curvavam
E todos gritavam hurra.
Com bumbum tralalá e até adeus
A mulher, o cão e o prelado
E entre eles o soldado morto
Como um macaco embebedado.
E quando as cidades percorriam
Não se via mais o morto lá
Eram tantos ao seu redor, o escondiam
Com seu bumbum e hurra.
Tantos dançavam e gritavam em rima
De forma que já não o viam
Podia-se vê-lo somente de cima
Mas em cima só estrelas haviam
Não estão lá sempre as estrelas
Pois vem certa uma aurora
Mas o soldado, como aprendera
Atira-se à morte heróica de outrora.