
Samsara em sânscrito quer dizer peregrinação, literalmente. Palavra de suma importância na filosofia budista, essa peregrinação diz respeito ao ciclo de morte e renascimento que a alma cumpre até a atingir sua libertação. Guardadas as devidas proporções, esse ciclo de morte-renascimento acontece em vida, o tempo todo. Desprender-se de muitas coisas, ligar-se à muitas coisas. Nascer e morrer todos os dias, reinventar-se, redescobrir-se.
Sabe qual o problema? É que a gente sofre. Sofre muito.
Às vezes por besteira, mimo ou frescura. Outras não. Mas não adianta relativizar o sofrimento e pensar que sempre tem alguém pior, como se eu precisasse estar morando na rua e passando fome ou fumando crack para disfarçar a dor para ter direito a me sentir mal. Da mesma forma com que os "filhinhos de papai" agigantam problemas idiotas, tem um monte de gente que cultiva quase que um orgulho por ter "direito" de reclamar da vida, já que são menos favorecidos. Eu respeito a sua favela amigo, mas quando um parente meu morre a minha dor é igual à sua, quando uma pessoa que eu considero me trai minha decepção não é menor do que a sua, quando eu sou mandado embora do emprego meu sentimento de humilhação é parecido com o seu, se descobrem um câncer sem tratamento tanto faz morar no Horto Florestal ou em Capão Redondo, o corpo só vai definhar no meio de uma paisagem mais bonita ou mais feia.
Claro que excetuando os extremos tem muita frescura. Mas mais do que pensar que eu posso ser feliz porque tem gente pior - isso é filosofia de livro de menina da pior espécie - eu prefiro pensar que as coisas passam, e se transformam. Eu não tenho que me comparar com ninguém para me resgatar do meu próprio sofrimento... É monstruoso ter que ler uma notícia de assassinato na periferia, de criança molestada pelo pai, de grávida viciada em cocaína ou de traficante trocando tiros com a polícia no meio de um pátio de escola para achar que a minha vida é boa. Ele precisa ser boa tendo ela mesmo como referência. Eu preciso ultrapassar o meu sofrimento e a minha dor sem precisar que me lembrem que tem gente em estado pior que o meu. Isso, com um mínimo de bom senso, eu já deveria saber.
Mas por que a "frescura"? Porque estamos no meio de tanto consumismo, de tanto culto à imagem, de tanta superficialidade que a competição e a necessidade de aceitação aumenta, a ponto de criar um contexto onde temos que entrar em um "padrão", temos que ser "aceitos", já que o mundo é dos lindos, bem sucedidos, dos consumidores ativos, dos "globalizados", dos "contemporâneos". E a gente quer se encaixar, sem perceber. Ou se revolta. Entre um lado e outro, o que há? Ou estereótipo de "estou dentro do sistema" ou estereótipo do "revoltado". Fazer discurso contra o "sistema" é fácil, como transformar em ação? Falar das mazelas do mundo é bacana, mas como transformar isso em uma causa?
Mas mesmo isso passa. A roda completa mais um giro e mesmo em uma sala de piso preto a gente se lembra da importância de voltar a sonhar.



