Eu queria que tudo o que fosse escrito pudesse ser lido de forma transparente e clara.
Mas digitando não temos rubricas nem mostramos nosso rosto, e a escrita torna-se perigosa.
Um náufrago numa ilha deserta não precisa se preocupar com isso: quando encontram a garrafa, ele já está no lucro.
Mas nesse mundo de msns, blogs, orkuts, e-mails e afins, a palavra vira um manancial de mal-entendidos.
Se você não vê meu rosto quando escrevo, imagine. Se não vê as intenções por detrás de uma palavra, pense nas possibilidades e incline-as para o bem - esta deveria ser a frase de abertura de qualquer texto escrito por essas vias tão pouco "humanas" que se encarregam de levar, através de fios, cabos e afins que as vezes estão nos limites da Telefônica, sensações e estados de alma que variam.
Me lembro de alguns casos em que um e-mail despretensioso estragou amizades.
A gente lê o que quer, ou acha que lê o que não quer. Já fiz isso muitas vezes.
Como um personagem, a fala escrita está distante de sua resolução ao vivo.
Pensei sobre isso esses dias.
E a net nos deixa com a ilusão ainda de que relações aconteçam por aqui. De que o email, o msn, o orkut, os blogs e afins substituem a palavra real, concreta, vivida, substituem o olho no olho, o som da voz, o cheiro, o toque.
Falando nisso, estou sem net em casa. Por isso aqui só vão palavras, sem imagens.
Talvez seja bom, para deixar claro quão incompletas elas são.
Esses dias me fizeram pensar sobre a utilidade de tudo o que é escrito aqui. Sobre a possibilidade real de traduzir em palavras amor, esperança, solidão, felicidade, prazer, arte, tristeza, ansiedade, alegria... em palavras. Não. Só passamos uma aproximação disso tudo.
No "Poder do Mito" o Campbell fala algo sobre as idéias e sensações que realmente valem a pena. Não podem ser traduzidas. Delas podemos ter uma tentativa de aproximação, já de segunda ordem. E quando falamos sobre, já estamos traduzindo em palavras essa segunda instância. Ou seja, tudo o que está aqui é algo de terceira classe, mais ou menos.
A Clarice escreveu algo como estar buscando a palavra que seria tão perfeita que não precisaria ser escrita.
Talvez fosse um silêncio preenchido, compartilhado.
Sem internet em casa, direto de uma lan-house e sem foto nenhuma ou imagem, deixo um silêncio bom.
Aqui.
"Gregor rastejou um pouco mais e colocou a cabeça o mais perto possível da porta, para que seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava."
terça-feira, 26 de agosto de 2008
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Cinema Paradiso - continuação

Nossa vida vale assistir à cena dos beijos cortados depois de anos passados?
Mas cadê o Alfredo colecionando os momentos censurados para nos deixar de herança a lata de filme?
Não assistiu ainda o "Cinema Paradiso"?
Dá uma olhada: http://www.youtube.com/watch?v=8zDNqBZPhpc(ATENÇÃO A PARTIR DE 2´52...)
Assista, mas não a "nova versão", com cenas extras. A versão que foi exibida originalmente, em 1989...
"A felicidade está em pedacinhos de descuido" (Guimarães Rosa)
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Cinema Paradiso

Alfredo
Era uma vez, um rei que deu uma festa para as princesas mais belas do reino.
Então…um soldado que estava de guarda viu passar a filha do rei.
Era a mais bela de todas e apaixonou-se logo por ela.
Mas o que pode fazer um soldado diante da filha de um rei?
Finalmente, um dia conseguiu encontrar-se com ela e disse-lhe que não conseguia viver sem ela. A princesa ficou tão impressionada com aquele sentimento tão forte que disse ao soldado:
“Se puder esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha varanda, no final, serei tua!”
O soldado foi para lá e esperou um dia, dois dias…e dez e depois vinte dias.
Todas as noites a princesa olhava pela janela e ele não se movia.
Debaixo da chuva, ao vento, na neve, lá continuava ele.
Os pássaros cagavam em cima, as abelhas comiam ele vivo, mas ele não se movia.
Ao fim de…90 noites, tinha ficado…magro e pálido. As lágrimas corriam dos olhos sem parar.
Não tinha forças para dormir. Entretanto, a princesa não o perdia de vista.
Chegou a noite do 99º dia.
O soldado levantou, pegou a cadeira e foi embora.
Toto
Como? No último dia?
Alfredo
No último dia e não me pergunte o significado que eu não sei.
Se você souber, me conta.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
"Eu estava dormindo, enquanto os outros sofriam? Estarei dormindo agora? Amanhã, quando estiver pensando que acordei, o que direi do dia de hoje?"

A citação aí do título é do Esperando Godot.
Tudo porque, de tão enfiado em sala de ensaio, aulas e apresentação no final de semana, descubro meio envergonhado, chegando em casa ontem, que o Caymmi morreu e que o Cultura Artística pegou fogo.
Pulemos o Caymmi. Não, nunca fui muito fã dele, apesar de respeitar sua importância na nossa música. Mas do Caymmi tive sempre a mesma imagem desde criança: um velhinho baiano deitado em uma rede, que já havia nascido muito, muito velhinho, no estilo Roberto Marinho e Dercy Gonçalves. Gente que você vê numa foto da década de 50 já grisalha. "Deus esqueceu o Caymmi aqui, ele não morre mais" - era o pensamento que tinha, assim como o Marinho e a Dercy. Mas Deus não esquece não.
Cultura Artística. Terrível ver um teatro incendiado. Ano passado eu estava em cartaz no Julia Bergman, quando pegou fogo. A sala onde estávamos apresentando não foi afetada. Sorte nossa, mas o resto do prédio ficou bem danificado. Triste. E de novo, assim como no ano passado, suspeita recai sobre os balões.
A última vez que eu estive no Cultura foi para assistir "O Avarento", com o Paulo Autran.
Por isso ele aí na imagem. Infelizmente, Deus também não esqueceu o Autran aqui.
Enfim, eu fui ver a peça. E passei uma vergonha considerável ali.
Me lembro que cheguei, sentei no meu lugar e ao ouvir a tradicional gravação do "desliguem os celulares", comentei com a moça sentada ao meu lado: "eu não entendo como ainda precisam lembrar as pessoas de desligarem os celulares antes da peça!"
Minutos depois eu, que nem me lembro do toque do meu, eu, que sempre deixo no padrão vibratório, eu, que acabara de fazer um comentário desses para a moça sentada ao lado - e que concordou comigo, olha só - eu OUÇO O MEU CELULAR TOCAR.
Tosco. Eu esquecera o bicho no sonoro porque estava com ele em casa e não mudei o toque depois.
Justo na última peça do Autran.
Hoje eu olho essa foto e penso que era o que ele gostaria de ter feito comigo no dia.
Desculpa, Paulo...
Enfim... Que o Cultura renasça das cinzas, o mais rápido possível.
A gente pode criticar o repertório como "teatro comercial" muitas vezes, ou o preço dos ingressos. Mas é um teatro.
Mirem seus balões nos bancos, nas igrejas que profanam o espaço sagrado dos antigos teatros ou cinemas, mirem seus balões para a Câmara ou para a Assembléia Legislativa.
Ou mirem para a puta que os pariu. Melhor, não mirem para lugar nenhum.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Existe mesmo Pequim?
Pela primeira vez em anos, esta Olimpíada parece que não existe.Não é pelo fuso horário, eu costumo dormir tarde. Mas algo de estranho acontece, como se Pequim não existisse. De vez em quando, pela televisão ou jornais ou pela internet, sou lembrado de que tem jogos acontecendo e que fulano ganhou uma medalha, o Ronaldinho marcou um gol às 5h da manhã, e por aí vai.
Será que eu posso ter pego uma antipatia pela China? Não pelos chineses. Nem pela cultura da China. Nem pelas tradições de lá. Mas de tanto falarem nas frescuras com a imprensa, na política um tanto fechada de lá, de tanto transmitirem essa imagem, às vezes me pego acreditando nisso. Será que é assim mesmo? Como julgar com tanta Globo, Jack Bauer e afins influenciando?
Mas o programa nuclear americano ninguém discute que deveria parar. A política externa deles nem precisamos comentar. E os chineses são os vilões? Devo excluir esta opção.
Será que é porque voltando de aula ou de ensaio meu ritmo está menos propenso a ver esportes olímpicos que só lembro que existem a cada quatro anos, tipo equitação, salto ornamental e 110 metros com barreiras? Pode ser.
Mas não deveria ser uma opção melhor em uma madrugada de insônia do que "Fala que eu te escuto" ou coisas do gênero? Excluída esta também.
Será que é porque eu simplesmente ache essa disputa pelo quadro de medalhas algo besta, considerando que para o Brasil competir com esses gigantes do esporte é complicado, e que no final das contas se o único ouro for o futebol já valeu mais que tudo? Que os pobres coitados dos atletas ralam feito uns animais para serem reconhecidos brevemente quando ganham uma medalha e depois... Ninguém lembra mais deles?
Mas tudo bem, como poderia ser diferente? A tradição no esporte ou na cultura, no nosso país, é algo a ser construído. Sem discursinho político, vamos excluir esta.
Enfim, não sei. Só sei que não chego a conclusão nenhuma e parece que Pequim não existe.
Resultado: acho que na época, Atenas era muito mais atraente que Pequim. Eu estava indo para lá, estudando grego e comovido com a volta dos jogos "para casa".
E para mim parece que o interesse pelos jogos decaiu muito.
Ok, a culpa não é da China.
Mas não sei se Pequim existe mesmo.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Avenida Paulista

Eu sempre gosto de andar por lá. Parece lugar comum falar de um ponto da cidade tão óbvio, mas não dá para negar que eu gosto sim e que é um dos lugares de São Paulo que mais trazem lembranças e que ao mesmo tempo mais têm o gosto do novo.
Porque se você não tem uma recordação da Avenida Paulista, um dia vai ter. A não ser que não more em São Paulo ou que nunca pise aqui.
Quem nunca teve uma conversa com alguém na frente do MASP? Ou que viu uma exposição lá? Quem nunca foi em um dos duzentos Mc Donalds que tem por ali? Quem não teve que recorrer - contrariado ou não - ao Shopping Paulista para comprar algo? Ou que entrou no Parque Tenente Siqueira Campos - mais conhecido como Trianon - ao menos uma vez? Ou que visitou as feirinhas de domingo, ou que pelo menos entrou ou saiu de uma das estações da linha verde do metrô e parou um segundo para olhar em volta, quem nunca ficou com raiva da decoração do Banco de Boston? Ou comprou pelo menos um cigarro de noite na Banca do Beto? E a FNAC? O SESI? O Conjunto Nacional? Os cinemas da região?
Como eu parei de beber, nem comentei da "prainha paulista" e adjacências.
A Paulista é boa para andar no lusco-fusco. E a noite.
Trilha: Cold Play - "What If"
Trilha: Cold Play - "What If"
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