quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Avenida Paulista


Eu sempre gosto de andar por lá. Parece lugar comum falar de um ponto da cidade tão óbvio, mas não dá para negar que eu gosto sim e que é um dos lugares de São Paulo que mais trazem lembranças e que ao mesmo tempo mais têm o gosto do novo.
Porque se você não tem uma recordação da Avenida Paulista, um dia vai ter. A não ser que não more em São Paulo ou que nunca pise aqui.
Quem nunca teve uma conversa com alguém na frente do MASP? Ou que viu uma exposição lá? Quem nunca foi em um dos duzentos Mc Donalds que tem por ali? Quem não teve que recorrer - contrariado ou não - ao Shopping Paulista para comprar algo? Ou que entrou no Parque Tenente Siqueira Campos - mais conhecido como Trianon - ao menos uma vez? Ou que visitou as feirinhas de domingo, ou que pelo menos entrou ou saiu de uma das estações da linha verde do metrô e parou um segundo para olhar em volta, quem nunca ficou com raiva da decoração do Banco de Boston? Ou comprou pelo menos um cigarro de noite na Banca do Beto? E a FNAC? O SESI? O Conjunto Nacional? Os cinemas da região?
Como eu parei de beber, nem comentei da "prainha paulista" e adjacências.
A Paulista é boa para andar no lusco-fusco. E a noite.

Trilha: Cold Play - "What If"

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Primeiro Final de semana


Bom ver tudo isso em cena outra vez.
Antes de tudo, é importante lembrar de onde viemos. Da estrada até aqui.
Quando a gente trabalha com teatro, na maioria das vezes é mais fácil encontrarmos motivos para parar do que para continuar. As pequenas questões pessoais, as dificuldades que minam nosso prazer, o próprio processo desgastante, nosso cansaço, nossa preguiça.
Os moinhos de sempre.
Estávamos lá, de novo. Concorrendo com a Achiropita. Concorrendo com a chuva. Concorrendo com o dia dos pais. Concorrendo com o frio.
"... e o bonito era que estava de olhos fechados, porque realmente dormia sonhando estar em batalha com um gigante."
A Aline fecha os olhos de verdade na cena do monstro.
E o bonito é que ela realmente sonha estar em batalha com um gigante.
E para poder sonhar também, deixo os meus abertos.
Que venham os moinhos, não tem problema.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Quixote - contagem regressiva


Contagem regressiva. Hoje muito trabalho arrumando a parte técnica - luz, som, adaptação no espaço novo... O que antes parecia um luxo (quatro ensaios no palco, com tudo montado) revelou-se uma necessidade. E como!
Fiquei feliz. É um projeto feito com o coração. E que vai ganhar uma temporada até final de agosto no Denoy de Oliveira... e do dia 13 de janeiro ao dia 19 de fevereiro no Centro Cultural São Paulo! Ok, aos milhares de leitores desse blog, não deixem para ir no ano que vem, prestigiem agora, combinado?
P.S.: Eu as vezes me esforço pensando que estou escrevendo algo interessante aqui e justamente quando falo de signos bato o recorde de posts! Não faltou nem um anônimo metendo o pau no meu recente ascendente!
Foto: Aline Baba como Sancho em lentes de Paulo Mancha

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ascendente

Estava eu cá com os meus botões pensando em tomar vergonha na cara e levar meus documentos que faltavam para a pós da ECA e poder finalmente pedir o meu diploma do mestrado, para poder pelo menos pensar a sério em fazer a prova para o doutorado.
Não, não penso seriamente em seguir a carreira acadêmica para o resto da vida, mas nesse momento voltar a estudar seria bom. Outra opção seria tentar outra graduação, tipo Letras. Mas não sei se encaro FUVEST de novo. Me parece um tanto duvidoso.
Enfim. Diploma de Graduação e certidão de nascimento. O que faltava.
Parênteses rápido: eu não creio nem descreio em zodíaco. As vezes leio o email que a Personare me manda (novo trânsito astrológico) e de vez em quando bate. Até ontem.
Calculei há tempos meu mapa, nascimento as 11h45, dia tal, ano tal, pronto. Minha mãe dizia que nasci nesse horário (agora estou na dúvida se era por ali ou exatamente isso) acrescentando: "Chegou para o almoço". Enfim. Ascendente, Aquário. E aos 34 anos já estava feliz e conformado sendo Aquário e deixando Escorpião.

Chego em casa ontem. Depois do ensaio. Pego os documentos que faltam - sim, achei o diploma que andou sumido. Olho a certidão. Hora do nascimento: 12h45. 12h45! De repente, meu ascendente deixa de ser Aquário e passa a ser... Peixes! Olha que beleza! Eu ganhei um ascendente novo. Mesmo para quem crê descrendo, foi um baque. Agora sou de Peixes. Nem sei exatamente no que isso implica, mas senti que uma nova vida se abriu. Eu sempre fui algo que não sabia, Peixes!

Momento de auto-conhecimento. Me deram um ascendente novo.
Daqui a pouco descubro que nasci em outro ano. Ou cidade. Ou país.
Só não quero virar leonino. Nem geminiano. Nem capricorniano.
Me perdoem os naturais desses signos, mas para mim não daria certo.

Bem, o novo pisciano deseja boa noite.

Ah, e deu certo. Deixei os documentos na pós.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Na Natureza Selvagem


Assisti ontem, finalmente, depois de ouvir falar muito no filme.
A idéia de "parem o mundo que eu quero descer" ou de largar tudo para ir ao encontro de si mesmo não é nova. E existem pessoas que sim, fazem isso. Chris não foi o primeiro.
Segundo nosso amigo Ícaro (de um post anterior) devemos apoiar aquele que escapa. Deixar de lado toda a estrutura social - e isso inclui não só as comodidades a que estamos acostumados como principalmente as relações - é quase impensável para a maioria.
Outro dia a luz estava cortada aqui em casa. O fato de simplesmente estar sem energia elétrica, sem computador, luz, telefone (o meu é daqueles sem fio que precisa ser carregado) e televisor já gera pânico. Mesmo que por algumas horas, ou por um dia. E é só um exemplo.
Enfim. O sujeito larga tudo e vai, sem destino. Bastando-se a si mesmo. Lendo, refletindo, como se a verdadeira "natureza selvagem" fosse uma viagem interna, mais do que uma escolha de viver próximo ao mundo intocado pelo homem - ou quase isso.
Cenas lindas da natureza, situações que mostram a adaptação humana frente à situações inóspitas, superação, resistência, sonho. Romântico e corajoso, não?
Queria ser como ele? Maravilha.
Mas vejamos a coisa sob outro ângulo.
Você pode fazer todos os sacrifícios do mundo, muito bem. Mas se começar a se julgar uma pessoa melhor que as outras, superior e sábia por causa disso, me desculpe: seus atos heróicos só servem para inflar o seu ego e jogar na cara dos outros quão especial você é. Buscando admiração ou pena. E principalmente julgando aqueles que vivem diferente de você.
Cada um escolhe viver como quer e não existe uma forma correta de viver. Existe sim a capacidade ou não de encontrar plenitude dentro das próprias escolhas. Viver no meio do mato não é mais "certo" que viver numa cidade. Pode-se ser alienado, prepotente ou solitário em qualquer um desses dois extremos e nas diversas opções entre um e outro. Não me venha com o papo de que você é especial porque virou eremita.
Sem querer contar o final do filme: um monte de gente bacana passa pela vida do cara, que só vira as costas para todo mundo, só abandona o tempo todo as pessoas que querem bem a ele. Para depois disso ele chegar à conclusão de que "a felicidade só existe quando é compartilhada".
Gênio!

domingo, 3 de agosto de 2008

Beleza Americana


“Foi num desses dias, quando está prestes a nevar e há uma eletricidade no ar.
Você quase pode ouvir, certo? E este plástico estava simplesmente dançando para mim como uma criança chamando para brincar... por quinze minutos.
Foi quando entendi que havia essa vida toda por trás das coisas e essa incrível força benevolente que dizia não haver razão para ter medo.
No vídeo, eu sei, não é a mesma coisa, mas ajuda a lembrar.
E eu preciso lembrar.
Às vezes, há tanta beleza no mundo!
Penso que não vou suportar e meu coração parece que vai sucumbir.”
Eu assisti de novo ontem, em DVD. E confirmei como a memória guarda cenas que certamente são achados, que foram feitas para serem registradas mesmo, apesar dos anos - já se vão 9 da estréia do filme por aqui - de dezenas de outras referências que se agregam a nossa mente, etc...
Com tantos atores maravilhosos, um roteiro excelente - apesar das críticas da época que preferiam o "Felicidade", que aborda temas semelhantes mas de forma mais rasgada - a cena mais memorável é um achado: a imagem de um saco plástico dançando ao vento.
Um saco plástico dançando ao vento. A nossa capacidade imensa em transferir humanidade até mesmo ao que é inanimado. Um saco plástico que parece criar vida ao ser levado pelo vento. E que ao mostrar essa humanidade na nossa cara é o estopim da reflexão acima.
"A vida se me é", diriam alguns. A vida basta-se a si mesma, e eu, inserido nela, a bebo, mesmo sem perceber. E o saco plástico te mostra que você está vivo. E isso é grande. "Não sei se o amor é grande ou eu que sou pequena demais", diria a Antônia do Jardim de Polvos. A vida está por detrás de tudo. A gente até pode sentir medo, mas não adianta. A vida segue, o mundo continua com ou sem nós, não adianta. Medo de quê?
Às vezes, há tanta beleza no mundo... Penso que não vou suportar e meu coração parece que vai sucumbir.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Kafka e a boneca

E eu pensando o que de significativo e interessante ocorreu nos últimos dias digno de postagem.

Li o livro ao lado. Correndo o risco de me deparar com um daqueles livros infanto-juvenis idiotas. Mas tudo bem: o título me pareceu estranhamente convidativo e li na orelha do que se tratava... Supostamente o velho Franz, em seu último ano de vida, resolveu escrever cartas para uma menina como se fossem de sua boneca desaparecida, passando-se por um "carteiro de bonecas". Arrisquei.

O fato acima é contado como real, as cartas imaginadas pelo autor e toda a trajetória do livro, ficção, já que nunca acharam a menina ou as cartas que ele teria escrito. Tudo pensado a partir do relato que sua última companheira fez deste episódio, quando ele já estava muito abatido pela tuberculose.

Não é uma grande obra. Mas tem uma delicadeza interessante ao nos colocar frente ao autor de "A Metamorfose", "O Processo" e outras obras densas - de cortar o ar com uma faca - preocupando-se e dedicando o seu tempo para entreter uma criança. Supor isso possível já vale suspender a incredulidade e aceitar o livro como um universo paralelo onde Kafka vira personagem e um lado do homem - ainda que imaginado - por detrás das sombras e pesadelos emerge doce, talvez em uma legítima - mesmo que imaginada, insisto - nostalgia da infância.

Você se lembra da sua infância? Qual a lembrança mais antiga que consegue evocar? Um cheiro? Um gosto? Uma pessoa? Uma música? Uma menina chorando em um parque? Uma boneca perdida? Uma barata?

No meio da discussão sobre a qualidade do livro ou sua relevância - no meio de tantos Ulisses e Clarices e etecéteras, por que ler isso - fica a vontade de ressuscitar a criança e pegar pela mão o menino que um dia fomos e dizer: você fez o melhor que pôde.

Boa noite, Franz.
Boa noite, boneca viajante.

Se o Homem se transforma em barata, um dia a barata pode acordar menino.