terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Quando eu tinha trinta centímetros



"Para Winnicott a sustentação ou holding protege contra a afronta fisiológica. O holding deve levar em consideração a sensibilidade epidérmica da criança – tato, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas – assim como o fato de que a criança desconhece a existência de tudo o que não seja ela própria. Inclui toda a rotina de cuidados ao longo do dia e da noite. A sustentação compreende, em especial, o fato físico de sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de amar. A mãe funciona como um ego auxiliar.

Winnicott propõe que, durante os últimos meses de gestação e primeiras semanas posteriores ao parto, produz-se na mãe um estado psicológico especial, ao qual chamou de “preocupação materna primaria”. A mãe adquire graças a esta sensibilização, uma capacidade particular para se identificar com as necessidades do bebê.

O holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem do estado de não-integração, que caracteriza o recém-nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe e o bebê assentará as bases para o desenvolvimento saudável das capacidades inatas do indivíduo."

Eu tinha trinta centímetros na foto que meu pai me envia à tarde.
Um metro e meio depois, mais ou menos, parece que ainda dá para sentir o paninho verde me cobrindo.
E a vida segue.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Anotações numa sexta-feira de chuva sobre a morte e Rocky Balboa

"Rocky" nunca foi uma figura levada muito a sério. Pouca gente lembra que o primeiro filme da série ganhou um Oscar, vencendo inclusive o "Taxi Driver"... Mas ganhar um Oscar também não significa necessariamente qualidade...
Acho que o Stallone colaborou muito para isso. Entretanto, longe de ser um bom ator, para papéis de Stallone ele funciona bem. E aquele boxeador meio debilóide e fracassado não poderia ser interpretado por outro cara. Bom, tudo isso para citar uma cena específica, do Rocky V, em que ele lembra de alguns conselhos de Mickey, o treinador octagenário que está nas últimas desde o primeiro filme e morre no terceiro.

A morte. Por que seguimos adiante, se conforme vivemos tanta coisa nos é tirada?
Quando alguém morre parece que leva junto um pedaço nosso. Um braço, uma perna, um pedaço do coração às vezes. E na ausência de seres mitológicos no nosso dia a dia nós mesmos temos que ser fênix em vida e aprender a recomeçar. Ou uma lagartixa - para ser menos poético - que faz o braço, a perna ou o pedaço do coração nascer de novo.

Na sua truculência de mau ator Stallone é um pouco como nós. Nós também não sabemos como atuar direito na vida. Não ensaiamos o suficiente, o texto não nos é dado com antecedência e o diretor ninguém conhece - quando muito, com sorte, vivemos em um "processo colaborativo". Ficamos abobados, dando murros para todo o lado, com a boca torta e caindo na lona de quando em quando.

Quando você resolve fazer teatro, existem mil motivos para desistir, todos - ou muitos deles - bastante legítimos. Mas ainda acho que a insistência mostra novos caminhos. Com a vida é a mesma coisa.

Afinal o coração é um músculo.
E talvez o contrário de "morte" não seja "vida", mas "amor".

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Balão do Borkman



- Só me lembro que, sozinho, naquelas noites insones, eu me sentia como que inflando um gigantesco balão para navegar por sobre os oceanos desconhecidos e perigosos. E não queria ter nem você nem o que pertencia a você comigo no balão.
- Por quê?
- Ninguém leva o que tem de mais precioso numa viagem como essa.
- Mas você levou a bordo o que você tinha de mais precioso: o seu futuro, a sua vida.
- Nem sempre a vida é o que se tem de mais precioso.

John Gabriel Borkman

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Invente menos problemas", diria o açúcar União...



"A melhor vingança é viver bem", diria o Cyro.

Não existe nada que possa tirar a maravilha de fazer da própria vida algo prazeiroso. Não, não estou falando em virar hippie ou beatnik, apenas extrair dos momentos algo que faça a gente lembrar que está vivo: pode ser um ensaio ou um processo criativo que ambicione algo maior, pode ser um simples sorvete com lascas de chocolate. E até resolver problemas pode ser uma maravilha também.

Foto:
No "ensaio do doutorado", em pose de "o que fazer?", por Carolina Loureiro

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Mulher, o Bebê e o Cachorro

Uma mulher passa com um carrinho de bebê.
Um cachorrinho a segue. Com uma bolinha azul na boca.
De tempos em tempos, ele estende com a boca a bolinha na direção da mulher, ela pega - sem parar de empurrar o carrinho - e joga a bolinha.
O cachorro corre atrás da bolinha, leva de novo até a mulher, e assim os três seguem seu passeio vespertino...

Gostei da cena.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tempos Modernos

Cena mais engraçada do dia é conversar com um gerente de atendimento à pessoa física sobre uma aplicação vinculada a uma conta simplesmente sumiu tendo como pano de fundo um cartaz com os dizeres: "fundo de investimento: aqui seu dinheiro sempre cresce."

E eu sempre ouvi dizer que eram as pessoas que assaltavam os bancos, não o contrário...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Bússola

"Quando você sabe o que quer, você tem todo o tempo do mundo", dizia o grego.
Existem momentos em que você se desvia do caminho sem perceber.
E existem momentos em que, mesmo que ainda fora do rumo, você se percebe e começa a buscá-lo. Estar perdido não é ruim. O ruim é não saber disso.
Como diria o Janô, "só se encontra quem se perde".
Sem fantasias, sem a crença de que a vida será ideal, sem a falsa esperança de que não haverá problemas. Mas sim, buscando reencontrar o caminho.

São Paulo, 3 de fevereiro de 2011: buscando o rumo.