segunda-feira, 20 de setembro de 2010

NIKLASSTRASSE, 36 - O Ensaio Aberto



Neste final de semana fizemos três apresentações do ensaio aberto do "NIKLASSTRASSE, 36", espetáculo baseado no conto "A Metamorfe", de Kafka.
A peça mesmo deve estrear só no primeiro semestre de 2011, mas foi uma experiência muito boa abrir essa etapa do trabalho para público, mesmo que pequeno, ali no Teatro Escola Macunaíma, onde o elenco todo, em épocas diversas, se formou.

Desde "Quixote", esta é a primeira produção "pronta" da Cia. dos Imaginários... Fizemos o "Hamlet Zero" em 2007 mas o projeto não teve sequência, foram apenas três dias de peça que, no futuro, renderão material para um "Hamlet" - projeto que está guardadinho na gaveta... Depois de ensaiarmos um Strindberg que se revelou um pouco distante do perfil da Companhia, agora fechamos a primeira etapa.

Obrigado a todos que estiveram lá!



Na foto:
"NIKLASSTRASSE, 36" nas lentes de Mariana Noguera, fotógrafa tradicional dos Imaginários. (Em breve mais fotos de Carolina Costa e Renata Laurentino!)

O mico leão dourado preso pelo IBAMA

Quando Jane foi denunciada, seu mico leão foi para o IBAMA. Sim, atrás das grades. O que deveria libertá-lo na realidade era uma prisão. Ele voltaria para a selva, para alguma reserva ecológica e nunca mais veria Jane. Seria isso melhor? Talvez um dia, se sua curta vida de primata permitisse, ainda poderia assistir, em algum televisor ligado em um horário político porvir, Jane candidata ao Senado Federal.

Pensou nas decisões humanas acertadas e preferiu, naquele momento, passear no ombro de Jane do que divertir-se nos cipós e nas árvores do Mato Grosso. Fez questão de morder o dedo do Tarzan, quando ele veio buscá-lo na gaiola com as promessas de liberdade e retorno à natureza.

Dizem que o mico leão está sendo readaptado, neste momento, ao seu habitat natural. Sobre Jane não temos informações, mas em breve nosso repórter trará notícias quentinhas de uma das três personagens.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As aventuras de Jane

A Fantástica Jane sai de casa no início do dia, munida de seu escafandro, um colete à prova de balas e patins que a fazem andar mais rápido. É uma moça precavida. Sabe de muitas coisas, especialmente no que diz respeito à vida em geral. Jane tem o mapa. O manual de instruções. E um vestido à prova de vômitos que veste por cima do colete à prova de balas. Jane não tem ilusões. É uma pessoa esclarecida e que domina plenamente seu intelecto, seus sentimentos e suas vontades. Revolucionária e existencialista. Vê o mundo de uma visão panorâmica, sábia e distanciada. Jane pensa secretamente em se candidatar ao Senado nas próximas eleições. Já tem uma plataforma política rascunhada e um projeto do que pretende fazer. Sempre a frente de seu tempo.

Na sexta-feira Jane compra um mico leão dourado clandestino e leva para casa. Invejosos de plantão denunciam o ocorrido e em pleno domingo de fórmula 1 ela é levada de casa, junto com o pequeno animalzinho e fichada pelo IBAMA. Agora Jane não poderá nunca mais ser Senadora, com seu passado manchado por uma situação banal.
E o animalzinho jaz numa cela, esperando o próximo vôo para Manaus.

Faltou um Tarzan nessa história, mas é melhor assim.

domingo, 22 de agosto de 2010

Equação do segundo grau.

Equações algébricas são equações nas quais a incógnita x está sujeita a operações algébricas como: adição, subtração, multiplicação, divisão e radiciação.

Exemplos:

a x + b = 0

a x² + bx + c = 0

a x4 + b x² + c = 0

Uma equação algébrica está em sua forma canônica, quando ela pode ser escrita como:
a0 xn + a1 xn-1 + ... + an-1 x1 + an = 0

onde n é um número inteiro positivo (número natural). O maior expoente da incógnita em uma equação algébrica é denominado o grau da equação e o coeficiente do termo de mais alto grau é denominado coeficiente do termo dominante.

Exemplo: A equação 4x²+3x+2=0 tem o grau 2 e o coeficiente do termo dominante é 4. Neste caso, dizemos que esta é uma equação do segundo grau.

O google me lembra daquilo que eu nunca aprendi ao certo e me tira a dúvida que estava na cabeça: não, em nenhum momento há referências de que nem a Arte, nem a vida, nem o Teatro tem nada a ver com uma equação do segundo grau.
Por que algumas pessoas têm mania de confundir a vida e Arte com fórmulas?
Para quem gosta das Exatas, vamos para a física quântica, pelo menos?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre leões marinhos



O leão-marinho é um animal sobre o qual quase nunca ouvimos falar por aqui. É como o Canadá, você sabe que ele existe mas deve ser um lugar maravilhoso de se viver, porque é raro alguma nota sobre ele na mídia. Vazamentos de óleo, guerras, crises internacionais, oscilações da bolsa pelo mundo, Olimpíadas, Copas e o Canadá lá. Sem novidades.

Para os interessados nesse belo espécime de mamífero, a Wikipedia tem um verbete emocionante: http://pt.wikipedia.org/wiki/Le%C3%A3o-marinho

Mas ficaremos aqui com o semblante do casal leonino-marinho da foto. Parece que a vida deles está boa, pelo sorrisinho. Um bom banho de sol de conchinha, salmões frescos (literalmente) a disposição, um laisser-faire contínuo, os corpos bronzeados. O leão-marinho é o sonho de todo mamífero.
Pelo menos no Ushuaia.

Alguém pergunta: "precisava ser tão longe"?
Ora! a felicidade precisa estar na sua esquina? E os nossos antepassados das Grandes Navegações, deixaram seus genes de aventura à toa?

"Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas foi nele que espelhou o céu."

Vou discutir com o Fernando Pessoa? Eu não!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"...é a vida, mais que a morte, a que não tem limites"



"O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites." Gabriel Garcia Marquez, O Amor nos Tempos do Cólera

Estava me lembrando do final do Cyrano de Bergerac, quando ele, já morrendo, tem uma alucinação e acha que está enfrentando novamente todos os inimigos que teve em vida. Ele sabe que vai morrer e ainda assim quer lutar de pé, pois "não se luta só para vencer". Fiquei me lembrando disso. "Não se luta só para vencer". E aí me veio o Gabriel com o trecho do livro sobre o qual montei "O Cheiro das Amêndoas Amargas" e a descoberta de que "é a vida, mais que a morte, a que não tem limites"...
Se pensarmos que vamos todos morrer um dia - até o Roberto Marinho que dizia "...se um dia eu vier a morrer" morreu - essa luta é inglória, pois perdemos no final... Mas tem alguma coisa irônica na vida que nos convence a cada dia que passa que a luta vale a pena, ainda que seja uma luta de Cyrano. São as pessoas que encontramos pelo caminho e as coisas das quais passamos a fazer parte e que são maiores do que nós.
Elas enganam a morte. E mesmo ela, a vitoriosa no final, é trapaceada.

Eu trapaceei a morte com o "Dzi Croquettes". Com este quadro que não sei porque chama "Serpentes Marinhas", já que o mais bonito são as costas nuas da figura, que dão vontade de iluminar com a projeção de alguma imagem. Com os amigos queridos que estiveram próximos no melhor estilo "uma dor repartida é uma meia dor, uma alegria repartida é uma alegria em dobro". Com os alunos em início de semestre ávidos pelo novo. Com os Imaginários e o Kafka.

Obrigado Paulinho, Marina, Andréa, André, Natália. Obrigado Denise. Obrigado Baba, Nardoni, Litto, Lucas, Japa. Obrigado aos Meninos Perdidos das terças e quintas à noite. Obrigado Carol e Lu.

Obrigado Renata.

domingo, 1 de agosto de 2010

Cyro del Nero ou A Falha Trágica



Quando minha mãe morreu, lembro-me do Cyro dizer: "a melhor vingança é viver bem". Não sabíamos se haveria um padre no velório e ele sugeriu, na ausência de um sacerdote, que alguém lesse a Carta de Paulo aos Coríntios. O padre veio e em meio à dor pensei que no final das contas a leitura da Carta seria melhor.

Cyro me enganou. Passou por uma cirurgia delicada, aos 78 anos. Teve que voltar para a sala de cirurgia meia hora depois de ir para o quarto. Ficou por lá mais não sei quantas horas. Uma terça-feira tensa. Achei que não fosse suportar. Suportou. Nos primeiros dias de UTI, sedado ou semi-sedado, com alucinações vindas da anestesia (duas em um único dia), foi melhorando aos poucos. Uma semana após a operação, ele em seu último dia de UTI (no dia seguinte foi para o quarto) e apesar do cansaço e abatimento naturais, me parecia bem.

Cyro fênix. Refazendo-se. Como escrevi no livro que lhe dei, El Libro de los Seres Imaginarios, do Borges. Ele era o ser imaginário da página 37, "El ave Fenix".

Na sexta faleceu, de madrugada. Me enganou. Como o Lawrence Olivier de quem ele gostava tanto, me convenceu de que estava bem.

Todo herói grego tem sua "falha trágica". O excesso que ao final das contas humaniza. O herói sabendo ou não disso trai a si mesmo e revela seu lado mais frágil.

O que mais me comove no Cyro não é sua erudição, a admiração pela sua experiência e pela sua vida, sua obra ou sua força criadora. É a falha trágica. A emoção que sempre esteve escondida na sua pinta de lorde inglês. Mais Brás e menos Alemanha. Inúmeros exemplos me vêm à cabeça, mas fico com a frase de cima: "a melhor vingança é viver bem."

Vinguei-me da vida que me levou o Cyro, depois de voltar da cerimônia no Cemitério Primaveras em Guarulhos, vendo o "Dzi Croquettes" no Reserva Cultural.

Ele teria dado uma gargalhada.

Um grande beijo mestre querido.