quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume 2

Questões para serem resolvidas - para uma boa sobrevivência:

1 - Como lidar com um momento da sua carreira onde as funções administrativas começam a ocupar um espaço maior que as de criação?

2 - Como resguardar a criação?

3 - Como manter um núcleo de colaboração artística ao longo dos anos e da penúria que é o mercado de trabalho?

4 - O teatro é necessário?

5 - Supondo que sim, como convencer os outros disso?

6 - Como dormir 8 horas por noite?

7 - Como convencer-se diariamente de que vale a pena?

8 - Supondo que valha a pena, como manter-se menos estressado e mais criativo?

9 - Como lembrar sempre do Brecht, quando diz que "Belo é resolver problemas"?

10 - Como escrever coisas mais interessantes em um blog do que uma lista de questões?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Teatro: Guia de Sobrevivência na Selva das Cidades - volume I



Há algum tempo atrás alguém usou o seguinte termo para definir o teatro, discorrendo sobre a idéia de o quanto ele consome uma pessoa em relação à vida pessoal, dedicação, etc.: "o teatro é uma amante muito ciumenta, ele exige exclusividade". Na época eu concordei, porque parecia óbvio demais o quanto é necessária essa dedicação. Só havia me esquecido de um ponto: pouco mais que um adolescente, ainda sem ter que pagar contas e outros bichos, era muito fácil elencar o teatro como principal - e talvez única - fonte de preocupações.

A próxima fase é a da relativização. As contas aparecem, os colegas fazem trabalhos comerciais e você já não crucifica ninguém por querer fazer televisão, por ter que largar um ensaio por causa de um trabalho remunerado ou por chegar atrasado / faltar por causa de um teste. Houve de alguns amigos mais radicais que "quanto menos ensaio melhor", que "em dois meses a gente monta uma peça" e recebe umas duas ou três propostas para montar um infantil. "Mas eu nunca me interessei por teatro infantil!"... "Tudo bem, a gente escreve um texto falando de meio-ambiente, ensaia na casa de alguém e depois vende pro SESC..." Nesse ponto você começa a olhar para trás e pensar se não era melhor a postura grotowiskiana do passado...

Depois vem o meio-termo. Existe - ou deve existir - uma postura de coerência sobre o porquê fazer teatro e uma ética pessoal sobre a que vincular sua imagem, seu tempo, etc. Sinceramente o "pagando bem que mal tem" não tem cabimento mesmo... Você lembra da atriz que fez campanha política para um cidadão que certamente não era seu candidato, além de ser um renomado canalha; do provocador que fez campanha para os discípulos de Omar Cardoso; do ator politizado fazendo Sandy e Júnior na Globo, e se pergunta se um MÍNIMO de coerência não é VITAL... Mesmo com as contas. Isso mesmo, MESMO COM AS CONTAS...

Aí você começa a viver a realidade. O tempo todo a vida é um jogo onde as regras são voláteis, as vezes, mas que tem princípios que não mudam. Fazer teatro é uma escolha e não me venham com a demagogia de dizer que é uma profissão como qualquer outra. Pelo contrário: no momento em que se tornar uma profissão como qualquer outra ele perde justamente o que tem de mais bonito - a capacidade de ser uma das poucas atividades que lidam com o subjetivo, com o sonho, com o "ser outro"... Não há mística nenhuma nisso. Mas um comprometimento com o lado menos pragmático da vida. Alguém quem tem que acalentar esse universo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Cibelle

Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
Come closer don't be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by
Clear the thistles and brambles
Whistle 'Didn't He Ramble'
Now there's a bubble of me
And it's floating in thee
Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say
It smells like rain today
God took the stars and he tossed them
Can't tell the birds from the blossoms
You'll never be free of me
He'll make a tree from me
Don't say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls, mark my words
We'll catch mocking birds
Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me
Remember when you loved me
Remember when you loved me


Cibelle chegou via msn, transferência de arquivos - meus arquivos recebidos: Green Grass- Cibelle. Você ouve a música e imagina os créditos subindo na tela preta do cinema...

A diferença entre a vida e os filmes do cinema é que, para bem ou para mal, mesmo nos dias em que a sensação é de créditos finais subindo na tela preta, há sempre outra sessão.

E é um pouco reconfortante ver a Michelle Pfeiffer com quase 52 naquela forma. Nada como uma musa da velha guarda para lembrar a todos que existem muitas mulheres lindas no cinema, mesmo que a mais sexy atualmente seja azul, tenha 3 metros e chame-se Neytiry.

Por falar em atrizes dos filmes que estão em cartaz, vamos ser sinceros: comentar que a Penélope Cruz é maravilhosa já é lugar comum. Alguém pode dar atenção à Kira Miró, a loira que aparece na primeira cena? Assim, só por justiça à moça...

E falando em cinema, pelo visto o Nine com o Daniel Day-Lewis vai fazer com que muita gente inveje a vida de diretor de cinema. Aliás, com direto à Penélope Cruz no elenco (a Kira Miró bem que merecia uma ponta...). E a Fergie. Ê Fergie... A prova viva de que mais do que ouvir (bem mais) devemos ASSISTIR os clips do Black Eyed Peas...

Enfim, um monte de besteiras para não discutir a letra da música da Cibelle. Mas tem tradução na net. Quem quiser, dá uma olhada. Ou melhor, ouve também.

domingo, 10 de janeiro de 2010

"Encontro de Casais" ou "Porque não assistir qualquer outra coisa quando seu foco inicial está com ingressos esgotados"



Eu já devia ter aprendido.
Há pouco tempo atrás fui assistir "Lamartine" no SESC Consolação. Era um sábado e descubro que a peça estava em cartaz apenas às quintas. Sempre fiel ao Antunes, tento a "Falecida Vapt-Vupt" e a moça da bilheteria me informa que estava esgotada até o final da temporada. Muito bem. Restou "Sonho de Outono", sobre o qual não sabia absolutamente nada. Peguei o programa e nem quis ler. "Vou entrar de coração aberto", pensei, "sem saber nada sobre a peça". Será que no meu íntimo esperava uma experiência reveladora, ingênua, onde algo iria se desvelar na minha frente como uma epifania? Não, talvez a decepção tenha sido simplesmente porque a peça era ruim mesmo. Quem gostou desse espetáculo tenha a bondade de não defendê-lo na minha frente. Foi a primeira vez que eu quase abandonei o teatro antes da peça acabar. Digo "primeira vez que quase abandonei" porque uma vez fiz isso, sai mesmo, no "Educação Sentimental do Vampiro", no SESI. Dessa vez foi quase. Devia ter saído.

Hoje fui disposto a ver o "Avatar". Meu irmão falou que é bom - dentro da proposta, claro - e me pareceu uma diversão despretensiosa para uma tarde de sábado de quase-férias-ainda. Ingenuidade de novo, por achar de saída que em um Shopping em pleno sábado de janeiro ninguém mais havia pensado nisso. Mesmo uma hora antes da sessão, a imensidão de pais, filhos, cachorros (é, eles frequentam, não sabia) e agregados prometia desilusões pelo caminho. Pensei em tomar um café. Fila. Cogitei outro, fila maior ainda. Resta subir ao Cinemark. Sessão esgotada. Qual opção ainda tem ingresso, já que vim até aqui? "Encontro de Casais". Como não estava no centro da cidade, excluí a possibilidade de ser um filme pornô. Não sabia nada sobre o dito cujo. Mas o cheiro de comédia romântica pairava no ar. Ok, o trabalhador brasileiro tem direito a um momento sessão da tarde.

Filme água com açúcar. Até que bem feito. E não é que tem uma cena que pega? Filhos da puta. Eu já me achando meio nórdico com Strindberg e Ibsen, acima da carne seca desse romantismo enlatado e barato e pronto: os caras me pegam em um detalhe miserável. Não aguento ver cena de casal discutindo onde um cala a boca do outro se beijando, de repente. Coisa que o imaginário hollywoodiano colocou na nossa cabeça mas que, confesso, me tira as defesas. O ápice desse imaginário é aquela cena do "Cinema Paradiso", no final. Mas aí é cinema bem feito. Hoje tive contato com uma versão bem tosquinha desse mesmo naipe, sem comparação. Mas os caras me pegaram.

O pior é que mesmo um filme meia boca pode ter a capacidade - dependendo das condições anormais de temperatura e pressão - de fazer com que você teça elocubrações que vão muito além. E veio a epifania tardia que o "Sonho de Outono" ficou me devendo.

Mas não vou escrever sobre isso hoje. Se você leu tanta bobajada até aqui, não merece uma tentativa de coisa séria no final. Vai decepcionar. Outra hora.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chuva



Wild is the Wind

Love me, love me, say you do
Let me fly away with you
We´re creatures of the wind,
And wild is the wind
Wild is the wind
Give me more than one caress,
Satisfy this hungriness
We´re creatures of the wind,
And wild is the wind

You touch me,
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins

Like the leaf clings to a tree,
Baby please, cling to me
We're creatures of the wind,
Wild is the wind

You touch me,
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins


Love me, love me, say you do
Let me fly away with you

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Cyrano


(...)

ROXANE
Oh! Você nunca havia falado assim antes!

CYRANO
É que é hora de abrir o coração!
Não de usar de palavras delicadas, mas de deixar que jorrem, livres, as incontidas águas da paixão! Sejamos simples, sob essas estrelas que pairam sobre nós, perenemente. As palavras mais simples são mais belas, porque transmitem o que a pessoa sente no mais fundo de si, mas mesmo elas não servem para dizer inteiramente deste amor que nasceu timidamente, mas com a força do vento e das tempestades!
Este amor que fugiu da claridade, escondeu-se de todos, nas vielas, escondeu-se nos becos, nas tavernas, e oculto te seguiu pela cidade!
Teu nome está em meu coração como um sino e assim como eu tremo pensando em ti, a cada vez que ele balança, lembro do teu nome! Roxanne! Roxanne! Roxanne! Estou tão habituado a tomar sua presença pela luz do dia que assim como ao olharmos o sol vemos um borrão vermelho, quando você surge minha visão ofuscada vê sobre todas as coisas apenas a sua luz impressa.

ROXANNE
Oh, isso é amor de fato!...

CYRANO
Pela sua alegria eu de boa vontade abriria mão da minha - mesmo que você jamais fosse saber - jamais! Se eu pudesse ouvir - longe de você e solitário - algum eco alegre de felicidade eu dou a você! Agora você me entende? Sente minha alma, aqui, em meio à escuridão crescente?

(...)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo ou como recomeçar



Na foto minha amiga Ana com uma amiga dela e a Sofia (nome provisório) dentro da barriga. A Sofia nasceu dia 17 agora. E hoje vai ganhar o nome definitivo. Eu espero que não seja Sofia... Mas mesmo assim ela inaugura as boas novas de 2010!

Feliz Ano Novo! Como diria um amigo que me mandou um sms na virada, "temos novamente 365 oportunidades de dizer sim à vida". E eu, sem muita criatividade, encaminhei o sms para outros contatos. Que ele entenda como um "sim" da minha parte à sua mensagem, e não simplesmente preguiça em pensar em algo melhor. E no exercício do plágio, para os que receberam meu sms encaminhado, que pensem que fui eu que escrevi, sem problemas.

Volto ao trabalho hoje sem muito o que fazer. São Paulo insiste em ser Manaus - muito calor e chuvas com hora marcada. Tempestades súbitas. Fui vítima de uma delas no sábado. Questão: será esperar muito dos motoristas de ônibus, em casos de enxurradas monstro, cuidar para não darem um banho cruel nas pessoas que tentam se abrigar nas marquises e toldos contíguos aos pontos?

A noite do domingo não passava. Será simples retomada do horário normal ou insônia mesmo? Por que questões existenciais, profissionais e estéticas têm mania de aparecerem justamente quando a gente quer que o cérebro descanse? Se "mente vazia é oficina do diabo", será justamente quando queremos esvaziar a mente que ele começa a trabalhar nela, ignorando o nosso sono necessário? Depois de Natal com Franz Kafka e Ano Novo com Ibsen, com quem serão os próximos feriados? Carnaval com Gordon Craig e Páscoa com Artaud (Carnaval com Artaud seria muito, "muito roots"...)? Pessoas vivas, apareçam, sim?

O que me atormentava ontem era a necessidade de um único projeto que conseguisse me alimentar. Mas parece que cada vez mais meu organismo estético almoça em restaurantes por quilo: o prato único deu lugar à variedade... Carne, peixe, frango e macarrão em um mesmo prato. Dá-lhe digestão. Até quando? Até porque "passarinho que come pedra..."

xxx

Existem formas de pensamento um tanto compartimentadas que nos são herdadas e guiam nossas escolhas. Não sei se forte demais pensar em "cânones" de ação, de opção, de conduta, de estética. Como se não fosse possível criar parâmetros. Estava lendo a tradução do Ferreira Gullar do "Cyrano" e ele comenta que Edmund de Rostand escreve uma peça de "romantismo tardio" e que na tradução ele tentou suavizar um pouco o clima exageradamente romântico. Ok, percebe-se isso na tradução sim, em contraponto com outras versões traduzidas mais "ao pé da letra". Mas uma questão que se colocaria logo de início ao trabalhar com este texto não seria: como correr o risco de adentrar nesse clima para talvez transcendê-lo? Até porque Cyrano é um herói romântico, bipartido (como o texto mostra na idealização da soma Cyrano - Christian) mas romântico.
Eu não gosto especialmente de Renato Russo, aliás nunca engrossei o coro dos que o consideravam gênio, poeta de uma geração, etc... Mas me lembro de uma entrevista que ele deu, já bastante comprometido pela doença, onde comentava sobre um disco solo que lançou só com músicas em italiano. Renato dizia que queria fazer um disco "brega mesmo" e que ao final nem tinha achado tão brega assim. O que me chamou a atenção foi o fato dele ter ido atrás de algo que queria fazer e realmente realizar isso, a despeito da crítica ou dos riscos de sentimentalismos, etc... Foi lá e fez. Até porque sabia que o tempo estava contra ele. E nós, jovens (ou pelo menos relativamente jovens) e sadios (ou pelo menos relativamente sadios, sem uma doença terrível nos lembrando do nosso prazo de validade à toda hora) o que fazemos?
Outro dia conversei com um colega que lembrava de suas realizações há dez, quinze anos atrás. Eu parei e disse: "não é um absurdo fazermos menos agora, que temos melhores condições, que há dez, quinze anos atrás?". Ele concordou.

Urgência de realizar. Mesmo correndo riscos.