segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Feriado, Bienal, Fuvest e etc.


E vem um feriado para quebrar a rotina.

Vamos por partes.


Em primeiro lugar, tive a brilhante idéia de ir à Bienal, já que inclusive comentei sobre ela antes de tê-la visitado, sobre a polêmica do andar vazio. Pois agora posso expressar minha opinião com conhecimento de causa mesmo, estive lá.


Andar vazio? Na realidade, parece que todos os andares estão vazios. Uma sensação de "vazio" no pior sentido, não da reflexão, mas como se estivéssemos sendo enganados. Poucas obras, sem a menor preocupação em indicar para você, público, o sentido delas estarem ali, sem acolher o visitante. Vazio no pior sentido - nem didatismo, nem choque, nem conservadorismo, nem abstração, nada mesmo. Uma impressão de que aquilo tudo é um trote, que as obras foram retiradas dali e que o Pavilhão ficou aberto apenas para dizer que algo acontece.

De tão mal-humorado, me recusei a descer pelo "escorregador". Não queria correr o risco de guardar uma lembrança boa sequer daquilo tudo.


Depois: Fuvest.

Ok, para quem não estudou nada literalmente acertar 50% da prova já está de bom tamanho. Vamos ver se a nota de corte sobe - o que eu acho bem provável, já que todos estão dizendo que a prova estava mais fácil que a do ano passado.


"Romance" com o Wagner Moura é um filme despretensioso, bem no jeitão das minisséries e especiais que o Guel Arraes dirige na Globo. A Letícia Sabatella é um pouco forçada no papel, o enredo não tem nada de especial e o Nanini e o Wilker foram chamados especialmente para fazerem Nanini e Wilker... Mas é bonito em alguns momentos sim. E o Wagner é um grande ator, o que já faz qualquer coisa valer a pena - raro ver um bom ator MESMO no cinema, sem se repetir, sem cair no naturalismo puro e simples... E para quem faz teatro, esse tipo de trama envolvendo os bastidores e a vida "real" em paralelo com as produções, ensaios, etc. em algum ponto toca. Por identificação, por crítica aos estereótipos as vezes, por negação. E ele nos faz entrar na história, uma história que talvez outro ator não nos convenceria e faria o lado negativo - da obviedade, do deja vu, etc - falar mais alto.
Parece que mais do que uma "boa história", estamos sentido falta de bons "contadores de história".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Aniversário


Ontem completei mais um.
E não é que foi bem melhor que o do ano passado?
:-)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Jogos na hora da sesta


E lá estavam todos eles. Ou quase todos.
Depois de um ano praticamente, reunidos em um mesmo palco, agora mais claro, talvez menos soturno, aparentemente menos soturno pelo menos.
"Jogos na hora da sesta" - com João, Socleson, Rita, Marcella, Paula, Paulinha, Natália, Rodrigo, Nadia, Stefânia, Rose.
Personagens que são trajetórias. Atores usando os próprios nomes e jogando, como crianças, revelando e camuflando a crueldade.
Fecha-se um ciclo. De agora em diante, eles completam sua passagem pela Universidade. Jamais ela será a mesma para eles - por mais que continuem seu contato com aquela estrutura, será agora como alunos formados. Concluíam sua graduação.
E de agora em diante, meu último vínculo afetivo com a Universidade também se conclui.
Parabéns, merda e obrigado por terem subido, mais uma vez, no aparelho. E de lembrarem que eu fui um dos operários em San Diego.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Eco e Narciso


Outro dia conversava com uma amiga e surgiu essa história. Eco e Narciso - e como algumas relações reproduzem o mito. Não basta o narciso, às vezes há um eco que cumpre também sua função - a de ecoar o narcisismo alheio.

Demora um pouco para perceber que nem um nem outro é saudável.
Deixemos esse povo afogado, sob as águas.
Como a Ofélia.
Mas essa é outra história.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"A Balada do Soldado Morto" ou lendo "Nada de Novo no Front"


A Balada do Soldado Morto
(tradução e adaptação por Antonio Cestari)
Já era a quarta primavera em guerra
E a paz não apareceu
O soldado decidido espera
E como um herói morreu.
Mas como a guerra não terminou
O rei vendo morto o soldado
Ficou muito triste e pensou:
Morreu antes do fim o coitado.
O verão esquentava a sepultura
E o soldado jazia sem reclamar
Até que uma noite muito escura
Chegou ali um médico militar.
A comissão médica aguardada
Pelo cemitério adentrou
E com uma pá santa e sagrada
O soldado exumou.
O médico com precisão o soldado olhou
Ou pelo menos o que deste sobrava
O médico, o soldado por apto achou
E que este do perigo se esquivava.
Saíram e levaram consigo o soldado
Azul e linda a noite por ser
Podia-se, sem o capacete armado
Da pátria, as estrelas ver.
Sobre ele aguardente derramaram
Pois já apodrecia
Rezavam em seus braços duas freiras
E uma puta vadia.
E como o soldado a defunto cheirava
Um padre ia em frende ao andor
Pela cidade nuvens de incenso espalhava
Para encobrir o fedor.
Fazia um bumbum tralalá
A banda na frente da procissão
Para que o soldado marchasse
Como aprendera no batalhão.
Fraternalmente pelos braços, então
Dois enfermeiros o soldado erguia
Para que não caísse no chão
Pois isto, acontecer não podia.
Sobre o seu terno mortuário
De preto, branco e vermelho pintado
Assim carregando-o, não se via
Entre tantas cores; o defecado.
Um homem de fraque marchava na frente
Com sua cabeça toda empinada
E como um bom alemão decente
Seguro de seu dever pela pátria amada.
E assim marchavam com seu bumbum tralalá
Pelo escuro caminho alarde
E o soldado marchava cambaleando
Como floco de neve na tempestade.
Gritam os gatos e os cachorros por vezes
Assoviam no campo os ratos de contra:
Não queremos ser franceses
Porque isto é uma desonra.
E quando pelas cidades passavam
Todas as mulheres estavam lá
Brilhava a lua cheia, as árvores se curvavam
E todos gritavam hurra.
Com bumbum tralalá e até adeus
A mulher, o cão e o prelado
E entre eles o soldado morto
Como um macaco embebedado.
E quando as cidades percorriam
Não se via mais o morto lá
Eram tantos ao seu redor, o escondiam
Com seu bumbum e hurra.
Tantos dançavam e gritavam em rima
De forma que já não o viam
Podia-se vê-lo somente de cima
Mas em cima só estrelas haviam
Não estão lá sempre as estrelas
Pois vem certa uma aurora
Mas o soldado, como aprendera
Atira-se à morte heróica de outrora.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Valeu McCain, abraço, me liga...


Tá aí o Obama.
Despachadão, pé na mesa, sorrisão do tipo "valeu, moçada".
Se vai mudar algo na realidade, não sei. Talvez na prática, não.
Mas ao menos existe algo de significativo na eleição de um presidente negro nos Estados Unidos e ao mesmo tempo da derrota daquilo que seria a continuação dos Republicanos no poder.
Assim como a eleição do Lula (ao menos a primeira).
Ainda que não haja uma mudança qualitativa, realmente transformadora das duas opiniões públicas (do Brasil e dos Estados Unidos que sim, continuam preconceituosas, racistas e elitistas), a possibilidade de existência de um impulso que faça acontecer uma ação inovadora (mesmo não sendo fruto de consciência e racionalização) já é algo a se comemorar.
Os gays ainda não podem se casar na Califórnia.
Mas os operários e os negros já podem ser presidentes.
Por que não tiram os direitos políticos dos toscos, ao invés de questionar os homossexuais, as minorias raciais, as diferenças religiosas?
Espero que o senhor continue com motivos para sorrir, seu Obama.
"I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin, but by the content of their character. I have a dream today."
Se o dia não chegou, está perto, Reverendo...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

ensaio sobre a cegueira


Ensaio sobre a cegueira.
À parte o livro do Saramago, à parte o filme.

Cegueira.
Que pode ser negra ou branca.

Nas condições mais adversas, o ser humano pode se tornar o mais perverso possível.
Ninguém é "bom" só porque "ainda não cometeu seus crimes".

Da civilização à barbárie, basta um empurrãozinho.
Resta apenas a esperança na humanidade, que pode ser um simples renovar de gentilezas.



"Minhas juras eram tantas quanto minhas palavras e as descumpria todas à luz clara do céu.
Eu era alguém que dormia pensando em projetos de luxúria e acordava para realizá-los.
Amava profundamente o vinho e com ternura os dados; quanto às mulheres eu superava um
turco. Falso de coração, fácil de ouvido, mão sanguinária; porco pela preguiça, raposa pela
astúcia, leão na pilhagem, voraz como um lobo, um cão raivoso. Não deixes que o ranger de uns
sapatos ou o sussurrar de sedas entreguem teu pobre coração a uma mulher: não põe teu pé
nos bordéis, tuas mãos nas saias, teu nome em livro de usurários; e poderás desafiar o demônio
impuro. O vento gelado continua a soprar pelos ramos do espinheiro; e diz, zuuum, zuum,
munn, num. Delfim, meu rapaz, meu rapaz, cessa! Deixa o vento trotar!
(A tempestade continua.)

Estarias melhor na sepultura do que expondo teu corpo nu a tais extremos do céu.
O homem é apenas isto? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à
ovelha, nem seu odor ao almiscareiro.
Ah! aqui estamos nós três, tão adulterados.
Tu não, tu és a própria coisa.
O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal como tu, nu e bifurcado.
(Começa a despir-se.)
Fora, fora com estes trapos emprestados. Desabotoa aqui.
(Começa a arrancar as roupas.)"

Shakespeare, Rei Lear