
Eu já devia ter aprendido.
Há pouco tempo atrás fui assistir "Lamartine" no SESC Consolação. Era um sábado e descubro que a peça estava em cartaz apenas às quintas. Sempre fiel ao Antunes, tento a "Falecida Vapt-Vupt" e a moça da bilheteria me informa que estava esgotada até o final da temporada. Muito bem. Restou "Sonho de Outono", sobre o qual não sabia absolutamente nada. Peguei o programa e nem quis ler. "Vou entrar de coração aberto", pensei, "sem saber nada sobre a peça". Será que no meu íntimo esperava uma experiência reveladora, ingênua, onde algo iria se desvelar na minha frente como uma epifania? Não, talvez a decepção tenha sido simplesmente porque a peça era ruim mesmo. Quem gostou desse espetáculo tenha a bondade de não defendê-lo na minha frente. Foi a primeira vez que eu quase abandonei o teatro antes da peça acabar. Digo "primeira vez que quase abandonei" porque uma vez fiz isso, sai mesmo, no "Educação Sentimental do Vampiro", no SESI. Dessa vez foi quase. Devia ter saído.
Hoje fui disposto a ver o "Avatar". Meu irmão falou que é bom - dentro da proposta, claro - e me pareceu uma diversão despretensiosa para uma tarde de sábado de quase-férias-ainda. Ingenuidade de novo, por achar de saída que em um Shopping em pleno sábado de janeiro ninguém mais havia pensado nisso. Mesmo uma hora antes da sessão, a imensidão de pais, filhos, cachorros (é, eles frequentam, não sabia) e agregados prometia desilusões pelo caminho. Pensei em tomar um café. Fila. Cogitei outro, fila maior ainda. Resta subir ao Cinemark. Sessão esgotada. Qual opção ainda tem ingresso, já que vim até aqui? "Encontro de Casais". Como não estava no centro da cidade, excluí a possibilidade de ser um filme pornô. Não sabia nada sobre o dito cujo. Mas o cheiro de comédia romântica pairava no ar. Ok, o trabalhador brasileiro tem direito a um momento sessão da tarde.
Filme água com açúcar. Até que bem feito. E não é que tem uma cena que pega? Filhos da puta. Eu já me achando meio nórdico com Strindberg e Ibsen, acima da carne seca desse romantismo enlatado e barato e pronto: os caras me pegam em um detalhe miserável. Não aguento ver cena de casal discutindo onde um cala a boca do outro se beijando, de repente. Coisa que o imaginário hollywoodiano colocou na nossa cabeça mas que, confesso, me tira as defesas. O ápice desse imaginário é aquela cena do "Cinema Paradiso", no final. Mas aí é cinema bem feito. Hoje tive contato com uma versão bem tosquinha desse mesmo naipe, sem comparação. Mas os caras me pegaram.
O pior é que mesmo um filme meia boca pode ter a capacidade - dependendo das condições anormais de temperatura e pressão - de fazer com que você teça elocubrações que vão muito além. E veio a epifania tardia que o "Sonho de Outono" ficou me devendo.
Mas não vou escrever sobre isso hoje. Se você leu tanta bobajada até aqui, não merece uma tentativa de coisa séria no final. Vai decepcionar. Outra hora.
Um comentário:
Se tem uma coisa que eu aprendi e defendo e que filmes "Sessão da Tarde" e besteiróis aleatórios, tem suas vantagens, por mais estupido que possa parecer eles nos permite o simples descanso de cerebro que pouco temos, desligamos, babamos em alguns casos de tão "off" que ficamos e de repente o filme acaba e vc começa a pensar de novo... e essa folga te permite novas perspectivas... afinal dar soco em ponta de faca nunca ajudou ninguem.
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