
Outro dia eu andava pela rua e ouvi a seguinte pérola, à frente um bar, 9 da manhã:
- Beber? Eu não, não bebo! Sou quase evangélico.
Pensei o que seria um "quase evangélico". Porque o "católico não-praticante" é conhecido, mas o "quase evangélico" para mim é novidade.
Não contente com a pérola, o sujeito ainda completa, sem me dar tempo para chegar à alguma conclusão com sua primeira frase:
- Sabe por causa de quem? Por causa dessa, aí - e aponta uma mulher ao lado dele, que sorri orgulhosa de ser o motivo da "quase conversão".
Apesar de um sorriso matreiro de "quase convertido", certamente o camarada modificou alguma coisa de sua pregressa - que deveria ser bem mais mundada, ao menos pelo teor alcoólico e tomou jeito, ou "quase tomou jeito" (supondo que ser evangélico seja tomar jeito) por causa da mulher. Na verdade ele deve ser um mentiroso contumaz que no seu "quase" tem na verdade esperança de aos poucos, com bom humor e uma pitadinha de cafajestada converter, ele sim, a tal evangélica. Mas mesmo essa opção, se realmente acontecer, serve aos propósitos deste texto.
Os individualistas de plantão que me perdoem, mas sim, muitas vezes mudamos, não pelas pessoas, mas por causa das pessoas. Achar que o ser humano é cristalizado aos 20, 30, 40 ou 50 anos, que já "temos nossa personalidade acabada", que "não podemos mudar", etc... é uma grande besteira. Só os prepotentes acreditam que não tem nunca algo à transformar, ou os imbecis egoístas que levantam a bandeira do "querem gostar de mim, vão ter que gostar do jeito que eu sou". O que é "do jeito que eu sou, meu Deus"?
Certo, existem determinados valores, crenças, particularidades que são complicadas de serem transformadas. Mas o ser humano pode se reinventar e se desenvolver, e muitas vezes a tal defesa da "personalidade" nada mais é que ego. Muito ego. Muito individualismo e vaidade camuflados sob a máscara da "personalidade forte", da "individualidade", do relativismo - é certo "para mim", eu te amo "hoje", etc. O "universo-umbigo". Insegurança de se abrir para o novo. As relações humanas nos contaminam para bem e para mal, ninguém é uma ilha ou vive em uma torre de marfim - mesmo que a internet possa dar essa ilusão, de que o mundo virtual substitui a relação concreta, material, viva.
Se o camarada gosta mesmo da moça, bonito o esforço de deixar a pinga de lado - ao menos do lado dela - e agradar um pouco a bonita. Mas na via de mão dupla das relações, fica a torcida de que o batuta converta a evangélica e que ela sim, de vem em quando pelo menos, tome uma cervejinha.
3 comentários:
Nananinanão... Passei reto na sexta!!!
Como faço pra chegar do metrô Marechal na sua ilustre residência?
"Um passo à frente e vc não está mais no mesmo lugar (e não é mais exatamente a mesma pessoa)".
Amar-se e contaminar-se. Ê delícia!
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