terça-feira, 7 de abril de 2009

O Teatro e o dia mundial do Teatro

Parece que uma tradução ao pé da letra da palavra grega theatron (que originou "teatro") é "lugar de onde se vê". Ou seja, o theatron na origem era a platéia, não o palco. Como se o foco, no final das contas, fosse o público, não o ator. A ele cabe comunicar e fazer chegar algo a quem está sentado - ou de pé - à sua frente. Ele reflete e amplia os sentimentos e as aspirações de quem está diante dele.
Tenho acompanhado muitos espetáculos universitários no TUSP. Alguns com bom público, outros menos, mas boa parte dos trabalhos das escolas (CAC, EAD, UNESP, UNICAMP...) é assistido, em sua maior parte, por alunos das mesmas escolas. Em escala menor, quase sempre é o que acontece no circuito comercial: quem assiste teatro? Quem faz teatro, geralmente.
Dia 27 de março foi o dia mundial do teatro. Muito bem. Houve manifestações da classe em favor de alterações nas leis de incentivo, o que é extremamente legítimo. Mas o buraco é mais embaixo.
Precisamos viabilizar nosso trabalho. Garantir leis que nos apóiem vai ajudar nossa sobrevivência, no sentido mais direto - termos dinheiro para bancar nossas produções, para comer, para pagar nossas contas, etc. Mas vamos continuar assistindo uns aos outros.
Garantir nossa sobrevivência como artistas requer algo mais. Requer público, formação de público, formação do olhar do espectador.
Sim, eu quero viver dignamente da profissão que escolhi. Mas quero que me assistam. Não só meus colegas de profissão, mas o comerciante do bairro, a dona de casa, o estudante da escola pública, o universitário da escola de engenharia, o garçom que vai entrar no serviço depois da minha peça, o jornaleiro da banca da esquina, o zelador do meu prédio. Quando esse povo irá ao teatro? Não precisa ver só a minha peça, vai no Sesc ver o Pret-a-Porter do Antunes, vai lá no TUSP ver a Mostra Experimentos, vai no Oficina ver se é todo mundo pelado mesmo, vai na sede da Cia Livre ver o último final de semana do Vem-Vai, vai de metrô no Centro Cultural acompanhar a programação de lá...
Sim, eu quero ter leis que me amparem e dignifiquem o meu trabalho. Mas a classe não pode se reunir só com o pires na mão. Por que ninguém fez um fórum aberto de artistas para discutir formas de criar um público de teatro? Na América Latina existem muitas Escolas de Formação do Espectador, aqui a discussão é recente. Não somos um feudo auto-suficiente onde uns se alimentam dos outros. Precisamos de dinheiro sim, mas precisamos de troca. Não com o meu amigo diretor, minha amiga atriz, meu colega de escola de teatro, o cenógrafo que trabalha comigo, o sonoplasta, o professor da universidade de teatro, pelo menos não só eles.
Precisamos do garçom, do jornaleiro, do zelador, do estudante de exatas, precisamos inclusive do empresário que se torna público e não apenas investido potencial, precisamos da dona de casa, do adolescente do cursinho, da comunidade da periferia, do punk, do emo, do clubber (existem clubbers ainda ou eles mudaram de nome?), do nerd, de quem quiser aparecer.
É legítimo e necessário lutar pelas Leis de Incentivo.
Mas a classe precisa se unir para discutir o futuro do teatro como arte, não só como profissão.
Mais do que dinheiro, a sobrevivência do Teatro está em ter a quem servir.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Reações Adversas


Segunda-feira, peça "Reações Adversas" aqui no TUSP.
A peça começa e termina com uma cena onde estão 4 corações de porco, bem parecidos com o coração humano que você vê aí acima. "Você vê" é uma figura de linguagem interessante. Esse coração aí de cima é uma imagem que não podemos ver em vida - ao menos em vida de seu dono. E a cegueira que temos pelos corações - nossos e alheios - não parece ter cura. Resta o quê? Qual seria o método Braille para compensar?
Quero olhar e ver o coração como no filme da Amelie Poulain.
Que ele bata, esteja vivo, e que a ignorância, o medo, a amargura, o rancor e tudo o mais não estejam ali. Só uma ternura esquecida e um olhar ingênuo sobre as coisas e o mundo.
Será que ele existe - esse coração - ou assim como na peça "Reações Adversas" é um coração de porco, que parece humano mas não é?

sexta-feira, 27 de março de 2009

à sombra de Godot

"Esperando Godot" só não é a peça mais importante do século XX se alguém escreveu algo melhor e deixou escondido. Eu ia começar esse texto dizendo "eu acho que..." mas resolvi mudar porque eu não acho, é certeza mesmo.
Lembro de uma entrevista do Gerald Thomas em que ele contava sobre um importante crítico de teatro do New York Times que na estréia americana da peça destruiu a encenação em sua coluna, dizendo que em resumo era uma obra onde "nada acontece em dois atos". Esse mesmo crítico, anos depois, em sua última coluna antes de aposentar-se, dizia que "Esperando Godot é a obra de arte mais importante do século XX. Estou me despedindo da crítica hoje porque se eu não consegui perceber isso há (x) anos atrás, certamente não serei capaz de avaliar o que acontece hoje."
Bom, depois que você tiver lido o Godot (direito, não como o crítico do New York Times) você vai ver que sua vida nunca mais será a mesma. Ok, você pode ler superficialmente até se divertir com a peça, vendo dois palhacinhos fazendo jogos divertidos enquanto o tempo passa. Pode rir de encenações idiotas onde o Godot aparece, onde muda-se o texto para Dagô, Gordinho ou coisa que o valha, onde cortam sem dó o Pozzo e o Lucky (para não falar do Menino, por que esquecem dele sempre?) e outras ações de "liberdade" com o texto...
O que o Beckett fez foi simplesmente genial. Pode-se ler de várias formas. Com desesperança, com esperança (afinal de contas há um Menino que traz uma mensagem de ALGUM lugar), com graça, com solidão, com distanciamento, com humor, com pessimismo.
E você sempre fica à sombra de Godot.
Mais do que NUNCA vir, ele SEMPRE volta.

quarta-feira, 25 de março de 2009

...vou comer um peixe em sua homenagem,

porque dizem que peixe faz bem para a mente, deixa as pessoas mais inteligentes. Quando eu fazia faculdade uma professora usava o eufemismo "você tem comido peixe?" quando algum de nós parecia meio lerdo... Então eu devo estar precisando de mais fosfato ou algo do gênero, não me lembro qual o elemento químico, vitamina ou afim que o peixe possui - talvez o esquecimento seja mais um indício da necessidade do peixe - e então hoje minha meta é almoçar um desses bichos.
Talvez eu faça como a menina do Les Ephemeres, que dormiu com o peixinho na mão. Não sei. Meu objetivo não é criar um deles, mas comê-los. E absorver o fosfato, vitamina ou sei lá o quê que o bicho me dará. Ou pelo menos que eu espero que dê.
Talvez eu fique menos lerdo em tirar um peixe das águas e passar para o bucho. Não sei. Talvez não resolva nada. Talvez não resolva, talvez nade.
Só sei que mesmo se engasgar não vou xingar o espinho hoje.
Deixa que ele sai, naturalmente.

segunda-feira, 23 de março de 2009

sem virgula nem ponto só umas linhas sem maior pretensão para falar do show de ontem

e então eu estava no show do radiohead e nem sabia que teria uma abertura do los hermanos como convidados e eu que sempre tive birra dos caras pela religião que montaram em cima de uma banda me prestei a ouvir e ver o show de coração aberto mas a impressão de que eles não estavam muito a fim pegou forte e depois teve o kraftwerk que ok tem o seu valor mas me parece extremamente datado e com uma proposta de show tão excitante quanto jogar video game em público num telão de oito metros e quando o radiohead começou já eram dez da noite e o cansaço tirou uns trinta porcento do prazer de estar lá mas valeu e não eu não sei o porquê de escrever assim sem virgulas em um texto sem nenhuma reflexão que lembre nem de longe o saramago por exemplo deve ser a preguiça de hoje compensando as horas de pé espremido no meio de tanta gente

sexta-feira, 20 de março de 2009

Labirinto

Então, o que eu queria era poder explicar o que é um labirinto, da mesma forma que ele foi entendido há tempos atrás. A gente se blinda com a escrita nesses lugares, e ninguém pode entender ao certo onde está a inspiração por detrás do que aparece. Ao menos nem todo mundo, talvez algumas pessoas possam. Quando nosso amigo teve que ir atrás do Minotauro ao menos a Ariadne deixou um fio para que ele pudesse achar o caminho de volta, mas quando a Ariadne foi embora, ou não existe, como achar a saída? Nem sempre seguir as próprias pegadas dá certo, tem momentos em que a poeira cobre ou elas simplesmente não se fixam no chão. E para os que entendem de labirintos pode-se fazer compreender que o chamado que encanta faz com que nos movamos para a frente, mesmo que perder-se faça parte do jogo. Ou da vida.

"Só consegue se achar quem se perde", dizia o Janô, dez anos atrás.

"Ó minha amada, os olhos teus", dizia o Vinícius, há muitos mais anos atrás.

"Saltar no abismo da fé", dizia o Kierkegaard, muitos mais anos atrás.

E hoje eu digo: ...

"... e só há um caminho para a vida, que é a própria vida" - Fernando Pessoa

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As 70 Melhores Coisas do Mundo

Falta apenas ordenar:

- Sexo: o "depois" com alguém que você realmente gosta
- Sexo: o "antes" com alguém que você realmente gosta
- Sexo: ok, o durante
- Tomar chuva próximo de casa e de um banho quente
- Ver seu vizinho chato mudando do prédio
- O torpor pós refeição
- Limpar o ouvido com cotonetes
- Sashimi de salmão
- Coca-cola, limão e gelo em todas as variações (normal, light e zero)
- Final de Copa do Mundo
- Churrasco bem feito
- Cheiro de dama da noite
- Assistir um espetáculo realmente transformador
- Varar a noite papeando com amigos
- O primeiro passo na rua depois de um dia de trabalho gratificante
- Dar uma aula realmente boa
- Sentir o corpo cansado por uma atividade física prazeirosa sem ter percebido o esforço
- Conseguir se fazer entender em outra língua
- Ouvir um "eu te amo" sincero com data de validade indefinida
- Tardes outonais com sol e frio
- Reencontrar pessoas queridas depois de muito tempo em abraços de mais de vinte segundos
- Noite de estréia
- Dia de pagamento
- Alta do hospital
- Ver o nome em qualquer lista de aprovados, preferencialmente concorrida
- Ser pai / mãe (é o que dizem ao menos)
- Ver o dia nascer junto com alguém que se gosta - e depois ir dormir antes dos passarinhos começarem a cantar, deitar com esse som ninguém merece
- Formar-se na faculdade ou ouvir a banca de mestrado / doutorado conferir o título e pensar "acabou!"
- Ficar completamente alterado pelas substâncias mais diversas pelo menos em uma época da vida
- Poder lembrar-se do item acima e com sabedoria poder dizer: "já passou essa fase", enquanto carrega o amigo em coma alcoólico ou o que o valha para casa
- Terminar uma madrugada com sanduíche de pernil do Estadão e Coca-cola achando que está limpando o organismo
- Almoçar em restaurante natural no dia seguinte a uma bebedeira acreditando com todas as forças que se vai mudar de vida
- O primeiro dia na academia, acreditando com todas as forças que se vai mudar de vida
- O último dia de academia, quando se é honesto consigo mesmo e livra-se da culpa
- Olhar o palco com cenário e/ou luz afinados, antes da estréia - preferencialmente quando isso não é minutos antes da apresentação
- Viajar com espetáculo
- Períodos de perda de peso em que se consegue comer as maiores afrontas ao modo light de ser sem engordar
- Gosto do arroto depois de comer em fast-food - escatológico mas que coroa o momento junkie food
- Vinho bom
- Gerações da mesma família reunidas no Natal, fim de ano, barmitzva ou algo assim - tudo de bom que elas trazem de comida nessas ocasiões
- Rir até chorar e doer a barriga
- Poder fazer uma estravagência financeira às vezes, conscientemente
- Olhar o fogo na lareira de uma sala aconchegante
- Poder auxiliar alguém que realmente precisa
- Ver neve caindo no rosto
- Sentir uma emoção muito forte por estar vivo sem saber explicar como nem porquê e sorrir sozinho com cara de besta
- Ficar apaixonado
- Vencer algum limite - físico, emocional, mental
- Dar-se conta de algo sobre si mesmo muito escondido nas entranhas do subconsciente
- Nutella
- Feijão fresquinho, feito na hora
- Sanduiche de mortadela do Mercadão
- Tirar cutícula de unha com o dente
- Temaki de salmão completo com direito a repetição infinita
- Estourar champanhe no ano novo - e beber depois
- Kibe em todas as suas variações - assado, cru, frito, recheado
- Ganhar uma partida de War concorridíssima depois de horas a fio
- Tirar comida do dente daquelas que incomodam
- Ganhar ou achar dinheiro do nada: desde bolso de calça até Mega Sena
- Primeiro gole da cerveja
- Acordar no horário normal no final de semana e poder voltar a dormir
- Fazer xixi quando se está muito apertado, quase a ponto de não aguentar
- Pizza do dia anterior quando se tira a azeitona e fica um buraco de queijo endurecido
- Vento nos cabelos andando em alta velocidade
- A sensação de querer esquecer imediatamente um livro muito bom que se acabou de ler para poder começar tudo de novo
- Filhote de cachorro
- Risada de criança bem pequena falando "de novo" (até a terceira vez, na quarta sai da lista)
- Descer em aeroporto internacional
- Matar barata com Mortein, você vê ela agonizar - elas merecem
- Emendar feriado